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Friday, June 18, 2010
A França em céu de brigadeiro
Saindo dos Alpes para o Vale do Loire, passando por cima do castelo de Chenonceau sobre o Cher e o castelo de Chambord.
Depois para o Monte Saint Michel, as falésias de Étretat, a Normandia e o cemitério americano de Colleville sur Mer, e de lá para os Pirineus e o aqueduto romano sobre o Gard.
Friday, May 07, 2010
Tango Amargo
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Para quem olha de fora, esta espécie de suicídio coletivo da Argentina parece um tanto incompreensível. Amigos de diferentes partes do mundo perguntam-se como um povo com o nível cultural e a riqueza que os argentinos um dia ostentaram pode chegar a este ponto?
Buenos Aires ainda tem a aura de cidade européia, com suas avenidas, parques, monumentos e prédios neoclássicos, mas os portenhos perderam o panache. Eles mesmos acusam os chilenos de serem "los nuevos porteños". Um chileno "con plata es insuportable"...
Encontrei aí representantes do setor rural, com certeza o mais resistente e o mais afetado pelas políticas ensandecidas dos Kirchner, ou "la monarquía" como os chamam.
A Argentina este ano terá a menor área plantada de trigo em 100 anos. As exportações de trigo e farinha foram barradas, e o grão é ainda mais taxado do que a farinha, em uma política que arruina agricultores e privilegia os moinhos, que por sua vez dão parte de suas comissões à quadrilha kichnerista que tomou conta do país. Exportações de carne, taxadas e limitadas. Em pouco tempo, a Argentina deverá estar importando carne brasileira, uma vergonha para um país que sempre foi o nome da carne no mundo. Soja, taxas de 35%, as famosas retenciones. Porque essa sanha em cima de produtores? Porque são a maior oposição ao governo, e porque os que geram a maior parte da riqueza do país. Sufocando-os, em breve a Argentina estará em ruínas.
Mas os Kirchner sobrevivem politicamente com seu populismo barato, que por exemplo acaba de criar uma bolsa que dá 180 pesos por mês e por filho a famílias pobres, e a um discurso obsoletamente peronista em prol de "los descamisados", embora a única área onde a economia parece ativa em Buenos Aires é na favela que surgiu entre o porto e a ferrovia, onde barracos não param de surgir e de serem ampliados.
Os Kirchner também sobrevivem do apoio de uma oligarquia de empresários associados ao governo, que beneficiam-se de suas políticas, como os moinhos de trigo. Ou como as empresas que através de um acordo negociado pelos Kirchner podem exportar máquinas a Venezuela. Sobre absolutamente tudo o que é negociado da Argentina através de intermediações do governo há uma comissão informal que varia de 15 a 20%. Calcula-se que la Famiglia Kirchner manipule diretamente de 4 a 5 bilhões de dólares por ano, dinheiro suficiente para lhes comprar juízes, congressistas, jornalistas e o que mais for necessário. E jornalistas, os que não se compram, se intimidam.
E longe de ser falácia da oposição, há dados conhecidos que dão uma idéia do tamanho do esquema. Em seus últimos dias como presidente, Nestor Kirchner liberou uma concessão exclusiva de máquinas caça-níqueis a um de seus sócios por 20 anos. Estima-se que os caças níqueis no país rendam 1 milhão de dólares por dia. Nestor impôs uma condição, que o número de casas de caças níqueis dobrassem no país para "gerar emprego".
É uma país tomado de assalto por uma quadrilha, do tipo daquelas que usa a democracia exatamente para solapar a democracia. Epa, espera, onde eu vi isso antes? Telebrás, Oi-Brasil Telecom, mensalão, Bancoop, Lulinha, Daniel Dantas...
Lembre aos argentinos que não somos assim muito melhores, mas o tamanho nos salva. Não se pode controlar tudo.
Enquanto discutíamos novas possibilidades com as negociações que se reabrirão entre Mercosul e União Européia, ficamos sabendo que Nestor Kirchner havia se tornado o novo presidente da Unasur, graças ao apoio do ex-Tupamaro uruguaio Pepe Mujica. No mesmo dia a Unasur sugeriu boicotar as negociações porque José Luiz Rodriguez Zapatero, primeiro ministro espanhol e anfitrião da Cúpula Europa América Latina que aconteceria em maio convidou Porfirio Lobo, presidente de Honduras. A Unasul, invenção de Lula, quer Manuel Zelaya de volta ao poder.
Dizem também na Argentina que os monarquistas não largarão o osso tão fácil, Nestor Kirchner volta a ser candidato assim que acabar o mandato da Reina Cristina.
Um uruguaio conosco à mesa comparou os argentinos a um preso que tem a cabeça imersa em um tanque de água, para ver quanto tempo consegue resistir.
"E siguen resistindo" admirou-se.
"Si", respondeu o amigo argentino olhando triste o copo de vinho, "pero te amargas".
Sunday, May 02, 2010
Viva Mexico!

A Cidade do Mexico vista de cima é uma imensidade árida de casas encravada em uma cuenca cercada de montanhas, com uma eterna nuvem de poluição em cima.
De perto é diferente, mas ao mesmo tempo bastante familiar. Avenidas arborizadas, algumas que lembram um pouco São Paulo, mas com menos prédios, já que a ameaça de terremotos (visível em todas as plaquinhas de o que fazer em caso de sismo) impediu muito tempo construções altas.
Uma miríade de lojinhas vendendo porcarias chinesas eletrônicas, tecidos, badulaques e brinquedos coloridos e baratos, compra-se oro, bijouterias, artigos religiosos, lanchonetes e cafés, sirve-se tacos, beba coca cola.
Mais de perto, no coração da cidade, alguns belíssimos edifícios coloniais aqui e lá, igrejas, conventos, casario antigo, alguns meio abandonados, precisando de uma reforma e de atenção. Uma multidão de rostos mestiços, crianças vendendo doces nos sinais e praças, engraxates, adolescentes escutando música americana com piercings e tatuagens.
Ao lado de edifícios espanhóis, ruínas de pirâmides astecas. Conversando com os mexicanos, percebe-se esse ressentimento, essa mágoa histórica por essa terra um dia ter sido o palco de uma civilização grandiosa destruída por invasores. Penso no que poderiam ser hoje, tivesse aquela civilização, suas guerras, seus sacrifícios humanos e sua devastação persistido, mas ao que parece não pensam assim. Há estátuas de príncipes astecas espalhadas pela cidade, e o passado é um resquício de orgulho do país hoje pobre.
No palácio do governo, os murais de Diego Riveram contam essa história mexicana de desilusão. Viviam os astecas em felicidade solar na natureza exuberante. Chegaram espanhóis com seus cavalos e padres, destruíram tudo o que ali havia criando a opressão. Só com o socialismo, o México voltaria outra vez a ser uma sociedade de iguais.
Infelizmente, ou felizmente, o socialismo não deu certo nem ali, mesmo com sindicalistas fazendo greve de fome em plena Plaza de la Constitución, pensei enquanto passava em frente à casa fortificada onde vivera Trotsky em Coyoacán, ali vizinho à casa azul de Frida Khalo, hoje point de fotos de feministas americanas e européias.
Conheci pessoas que trabalham no agronegócio mexicano, paralisado por uma lei fundiária que limita o acesso à terra, e faz com que mais de dois terços das propriedades tenham menos de 5 hectares. Ninguém sobrevive, e a economia não avança forçando o México a importar alimentos dos Estados Unidos. Engraçado que queiram implantar o mesmo tipo de regime por aqui alegando justiça social.
E assim, o México sobrevive entre a mágoa do Império antigo, o espanhol, a ilusão do socialismo e a mágoa do Império novo, o americano, ao mesmo tempo inferno e paraíso.
Discutia-se a nova lei de tolerância zero com imigrantes ilegais implantada no Arizona, lamentada por Obama, denunciada por Calderón mas apoiada pelos americanos.
Para a juventude transviada mexicana há dois caminhos, a emigração e o tráfico, dominado por terríves cartéis cujos tentáculos invisíveis estão por toda a parte. O taxista me contava de como a secretária de segurança de um estado vizinho havia escapado de um atentado a tiros, e que no lugar desse atentado mais de 2.000 cápsulas de bala haviam sido contadas espalhadas pelo chão.
Mas educados, comendo a tortilla de todo dia, abrem sempre um sorriso triste e te cedem a passagem dizendo "adelante caballero".
Wednesday, February 17, 2010
Cunha
A três horas de viagem de São Paulo está o santuário de Nossa Senhora de Aparecida. Pare para uma oração naquele que é o solo mais sagrado do Brasil, onde está a imagem de nossa padroeira e para onde milhares de fiéis vão em peregrinação todos os anos.
Dali sai a estrada real, que levava o ouro das Minas Geraes para Paraty e dali à metrópole portuguesa.
No meio do caminho está Cunha, encravada a mil metros de altura na Serra da Mantiqueira.
À direita está São Luís do Paraibuna, que se Deus quiser se reerguerá das enchentes. Aliás a água deixou marcas em toda a parte, de buracos nas estradas a restos de barrancos deslizados.
Mas esse trecho da antiga estrada guarda várias surpresas ao viajante.
Para começar Cunha tem a maior concentração de fornos Noborigama da América Latina, e atrai ceramistas do Brasil todo. Em alguns dos ateliers pode-se assistir a uma abertura de fornos, depois de semanas queimando as peças cuidadosamente trabalhadas, ou pode-se assistir à queima do raku, outro tipo de cerâmica fabricado por lá.
A serra tem seus atrativos e surpresas, patrimônio histórico, cachoeiras, fazendas de shitake, búfalos e até cervejarias escondidas. Fora os restaurantes, as docerias e os alambiques com pinga da boa. Dali do alto enxerga-se Paraty na costa, aparecendo por trás do parque estadual da Serra do Mar.
Fosse o turismo levado a sério como política pública, as pequenas propriedades dali teriam a oferecer uma commoditie que está se tornando cada vez mais preciosa no estado: o sossego. Mesmo assim quem quer Carnaval também tem, com os blocos populares da cidade.
Já são várias pousadas, trilhas e lugares a visitar, mas a região deveria se tornar para São Paulo o que Bonito se tornou para o Mato Grosso do Sul, um verdadeiro pólo de turismo juntando Cunha, São Luís, Aparecida, Monteiro Lobato, São Francisco Xavier e Campos do Jordão.











Dali sai a estrada real, que levava o ouro das Minas Geraes para Paraty e dali à metrópole portuguesa.
No meio do caminho está Cunha, encravada a mil metros de altura na Serra da Mantiqueira.
À direita está São Luís do Paraibuna, que se Deus quiser se reerguerá das enchentes. Aliás a água deixou marcas em toda a parte, de buracos nas estradas a restos de barrancos deslizados.
Mas esse trecho da antiga estrada guarda várias surpresas ao viajante.
Para começar Cunha tem a maior concentração de fornos Noborigama da América Latina, e atrai ceramistas do Brasil todo. Em alguns dos ateliers pode-se assistir a uma abertura de fornos, depois de semanas queimando as peças cuidadosamente trabalhadas, ou pode-se assistir à queima do raku, outro tipo de cerâmica fabricado por lá.
A serra tem seus atrativos e surpresas, patrimônio histórico, cachoeiras, fazendas de shitake, búfalos e até cervejarias escondidas. Fora os restaurantes, as docerias e os alambiques com pinga da boa. Dali do alto enxerga-se Paraty na costa, aparecendo por trás do parque estadual da Serra do Mar.
Fosse o turismo levado a sério como política pública, as pequenas propriedades dali teriam a oferecer uma commoditie que está se tornando cada vez mais preciosa no estado: o sossego. Mesmo assim quem quer Carnaval também tem, com os blocos populares da cidade.
Já são várias pousadas, trilhas e lugares a visitar, mas a região deveria se tornar para São Paulo o que Bonito se tornou para o Mato Grosso do Sul, um verdadeiro pólo de turismo juntando Cunha, São Luís, Aparecida, Monteiro Lobato, São Francisco Xavier e Campos do Jordão.











Sunday, November 15, 2009
Thursday, October 15, 2009
Comida di buteco
Belo Horizonte aparentemente é uma das cidades com mais butecos por habitante do país. Buteco ali é levado a sério.Não é por menos que há dez anos existe um concurso gastronômico destinado a eleger os melhores petiscos da cidade.
No domingão antes do feriado, meio sem rumo, encontrei um buteco na rua atrás do meu hotel.
O buteco era o Estabelecimento, que já foi eleito pela Veja Brasil o melhor buteco e o melhor ambiente de happy hour da cidade.
O Estabelecimento é um legítimo buteco de fundo de quintal, com mesinhas toscas em volta de uma jabuticabeira, dois puxadinhos de telhado, muitos badulaques espalhados e uma cozinha aberta onde duas tias gordas preparam a comida. Mais mulamba impossível, e por isso mesmo autêntico e perfeito para tomar aquela gelada.
O prato do Estabelecimento para a edição atual do Comida di Buteco é a Costelinha do Piru.São espetinhos de costelinha de porco desossadas com molho de mexerica e acompanhados de uma farofa de milho e pescoço de peru desfiado. Delicioso.
Experimentei também a Batata do Malandro, batatas ao murro com carne cozida no vinho desfiada e molho de creme de leite e queijo. Bão tamém.
E tudo isso tomando uma brahma geladésima e uma dose de cachaça Vale Verde, a número um do meu ranking...
Mineiro sabe o que é bom.
Belo Horizonte
Saturday, June 27, 2009
São Francisco Xavier
E que for a São José dos Campos não pode deixar de ir conhecer São Francisco Xavier, a 40km dali.
É uma vila preciosa encravada na Serra da Mantiqueira, com cachoeiras, belas paisagens rurais, pracinha, coreto, cafézinho na esquina, muitas lojas de artesanatos e bons restaurantes.
Experimentem as trutas da Mariser. Tem grelhada com farofa de pinhão, assada com provolone ou com purê de mandioquinha e acelga!
Experimentem as trutas da Mariser. Tem grelhada com farofa de pinhão, assada com provolone ou com purê de mandioquinha e acelga!

Wednesday, June 10, 2009
Brasília

A capital me deu uma sensação estranha. Havia passado por ali há muitos anos atrás e nunca mais voltei.
As distâncias imensas, os espaços vazios entre os prédios.
Olhei os edifícios imensos e suas estranhas formas, as letras garrafais indicando órgãos do governo em toda a parte.
Ali que está o poder, todo poder que emana do povo, ou todo o poder que engana o povo.
Minha visita ali teve uma razão objetiva, encontrar pessoas que pensam como eu e esperar justiça ser feita.
Mas teve talvez uma razão subjetiva. Enquanto olhava os prédios passarem na janela do carro pensei na sequência de acontecimentos que me levaram até ali, e em acontecimentos futuros que podem me levar de volta. Tudo acontece por um motivo?
Veremos.
No avião de volta li um livreto chamado A Maleta de Meu Pai, com três discursos de Orhan Pamuk, o escritor turco ganhador do Nobel.
Fala, de uma belíssima forma, da literatura em geral, de como o escritor que se senta sozinho à sua mesa constrói seus mundos, transforma-se em outros, para os que o lêem se transformem nele. Me deixou pensativo também.
Quem sabe construiremos, como uma cidade que saiu da nada, novos mundos com palavras?
De qualquer modo a viagem foi o fim dos meus tormentos depois de ter voltado da Europa e ajudou a entender quem quero ser daqui para frente.
Friday, May 08, 2009
O Trem do Pantanal

Almir Sater - Trem Do Pantanal
Lula lá está aqui em Campo Grande junto com a Pri do BBB para reinaugurar nesta sexta feira o Trem do Pantanal. Tirando a presença de Lula e da Pri do BBB, o resto da notícia é boa.
Eu fui menino em uma cidade, Araraquara, que cresceu à sombra da estrada de ferro Mogiana. Em seus anos dourados, os trens levavam o café do interior de São Paulo para a capital e para o porto de Santos. Até o time da cidade, a Associação Ferroviária de Esportes, teve suas origens na companhia ferroviária.
O café sumiu, a Ferroviária amargou mais de dez anos na série A3, o que é uma vergonha para um clube de 60 anos de idade, a estrada de ferro agora corta a cidade ao meio atrapalhando o trânsito, e os trens viraram sucata, o que é incompreensível em um país hoje à beira de um apagão logístico.
O trem do Pantanal funcionou por 81 anos ligando Bauru a Corumbá. Depois ficou parado por 18 anos. Durante esse tempo a ALL tomou conta do transporte de cargas, mas agora o trem de passageiros será reativado para atender aos eco-turistas. Entre Miranda e Corumbá a linha atravessa 80km de Pantanal. Por enquanto o trem vai de Campo Grande a Miranda em um percurso de 7 horas, parando para almoço em Aquidauana. No ano que vem ele chegará até Corumbá.
Eu me lembro de um programa de tv europeu que mostrava os caminhos de trem mais bonitos do continente. Espero que a moda pegue por aqui e que outras linhas históricas sejam restauradas.
Que tal um passeio diferente para fazer seu coração viajar sobre todos os trilhos da terra?

Estação Ferroviária de Miranda em 1914
Friday, February 27, 2009
Heróis esquecidos

Houve um tempo em que o Mato Grosso era terra para poucos e bravos
Hoje Bonito e as cidades ao redor foram loteadas por agências de ecoturismo que trazem bicho-grilos e playboys das grandes cidades para cá. Paga-se para nadar no rio, paga-se para ver uma gruta, paga-se para tudo.
Fui ver o Buraco das Araras, um buracão no chão onde araras fazem ninhos. (Google Earth 21°29'30.22"S, 56°24'10.97"O). São 25 reaus por pessoa diz a mocinha na entrada. Estávamos em quatro, 100 pilas para ver um buraco no chão. Legal para algum europeu que nunca viu uma arara antes. Ou um buraco.
Sim, sim, traz empregos e desenvolvimento à região, mas convenhamos, porque existe esse senso geral, seja em Paris ou no Mato Grosso, que turista tem um outdoor escrito trouxa na testa com letras luminosas?
Desistimos e voltamos à cidade de Jardim. Na entrada da cidade uma placa modesta indicava Monumento dos Heróis.
- Vamos lá ver, eu disse.
Depois as indicações sumiram. Seguimos por uma estrada de terra, entramos em uma pedreira, voltamos e perguntamos o caminho a um velho que vinha em sua bicicleta no meio da poeira.
- É ali na frente, estou vindo de lá agora.
- O Sr. vai lá todo dia?
- Todo dia eu vou lá e rezo um Pai Nosso.
Um quilômetro adiante havia um muro branco à beira da estrada e um portão aberto.
Abri uma cerveja, entramos e andamos mais uns duzentos metros até chegar a um cemitério simples, de cruzes brancas de madeira fincadas no chão. Um ou outro túmulo de tijolo. Um mastro e uma placa colocados pelo exército serviam de monumento.
Hoje Bonito e as cidades ao redor foram loteadas por agências de ecoturismo que trazem bicho-grilos e playboys das grandes cidades para cá. Paga-se para nadar no rio, paga-se para ver uma gruta, paga-se para tudo.
Fui ver o Buraco das Araras, um buracão no chão onde araras fazem ninhos. (Google Earth 21°29'30.22"S, 56°24'10.97"O). São 25 reaus por pessoa diz a mocinha na entrada. Estávamos em quatro, 100 pilas para ver um buraco no chão. Legal para algum europeu que nunca viu uma arara antes. Ou um buraco.
Sim, sim, traz empregos e desenvolvimento à região, mas convenhamos, porque existe esse senso geral, seja em Paris ou no Mato Grosso, que turista tem um outdoor escrito trouxa na testa com letras luminosas?
Desistimos e voltamos à cidade de Jardim. Na entrada da cidade uma placa modesta indicava Monumento dos Heróis.
- Vamos lá ver, eu disse.
Depois as indicações sumiram. Seguimos por uma estrada de terra, entramos em uma pedreira, voltamos e perguntamos o caminho a um velho que vinha em sua bicicleta no meio da poeira.
- É ali na frente, estou vindo de lá agora.
- O Sr. vai lá todo dia?
- Todo dia eu vou lá e rezo um Pai Nosso.
Um quilômetro adiante havia um muro branco à beira da estrada e um portão aberto.
Abri uma cerveja, entramos e andamos mais uns duzentos metros até chegar a um cemitério simples, de cruzes brancas de madeira fincadas no chão. Um ou outro túmulo de tijolo. Um mastro e uma placa colocados pelo exército serviam de monumento.
Bem mais modesto do que os monumentos de guerra que vi na Normandia, em Waterloo, no Valle de los Caídos. A grama mal aparada, algumas cruzes arrancadas, uma pichação na placa.
Ali, à beira do Rio Miranda estavam enterrados soldados e oficiais que tinham feito a Retirada da Laguna.
Ali estava a lápide de mármore do Coronel Camisão, que liderou a coluna brasileira até terras paraguaias, conquistando Bela Vista e prosseguindo até a fazenda Laguna do próprio Marechal Solano López.
Forçados a retirarem-se pela falta de munições e víveres, foram atacados pela fome, pelo fogo, pela cavalaria paraguaia e pelo cólera durante todo o caminho de volta. Ali pereceram.
Não havia ninguém ali. O lugar não está nos mapas de turismo. Não se pagava para entrar, mas se me cobrassem ali os 25 reais para preservar o sítio eu daria de bom grado. É bom resgatar um pouco da memória em um país que não tem quase nenhuma.
Naquela noite eu encontraria um fazendeiro em cuja propriedade passava o Cambarecê, o riacho do Negro que Chora, onde 130 coléricos haviam sido abandonados para que o resto da coluna se salvasse. Não é raro que encontrem por ali enterrados restos de baionetas, facas e fivelas dos soldados
Pensei no encontro surreal com o velho da bicicleta. E pensei que eu queria estar ali cento e vinte anos atrás, nadando de graça nos rios cristalinos e tomando a terra a paraguaios, bugres e onças a golpes de punhal.
Hoje sou só um turista playboy de latinha na mão.
Ali, à beira do Rio Miranda estavam enterrados soldados e oficiais que tinham feito a Retirada da Laguna.
Ali estava a lápide de mármore do Coronel Camisão, que liderou a coluna brasileira até terras paraguaias, conquistando Bela Vista e prosseguindo até a fazenda Laguna do próprio Marechal Solano López.
Forçados a retirarem-se pela falta de munições e víveres, foram atacados pela fome, pelo fogo, pela cavalaria paraguaia e pelo cólera durante todo o caminho de volta. Ali pereceram.
Não havia ninguém ali. O lugar não está nos mapas de turismo. Não se pagava para entrar, mas se me cobrassem ali os 25 reais para preservar o sítio eu daria de bom grado. É bom resgatar um pouco da memória em um país que não tem quase nenhuma.
Naquela noite eu encontraria um fazendeiro em cuja propriedade passava o Cambarecê, o riacho do Negro que Chora, onde 130 coléricos haviam sido abandonados para que o resto da coluna se salvasse. Não é raro que encontrem por ali enterrados restos de baionetas, facas e fivelas dos soldados
Pensei no encontro surreal com o velho da bicicleta. E pensei que eu queria estar ali cento e vinte anos atrás, nadando de graça nos rios cristalinos e tomando a terra a paraguaios, bugres e onças a golpes de punhal.
Hoje sou só um turista playboy de latinha na mão.
Bonito
Wednesday, February 18, 2009
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