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Thursday, August 26, 2010

Moby Dick e o touro


Dei um tempo nos meus livros de política, e voltei um pouco aos meus amados clássicos de aventura para relaxar um pouco.
Reli Moby Dick, de Melville. Desnecessário dizer, a história é a luta entre uma força bruta da natureza e um homem obcecado por ela, o irascível capitão Ahab.
Sei que serei certamente crucificado por alguns, mas eu adoraria subir em um bote e enfiar um arpão no coração do monstro. É o que dá ler livros bem escritos.
Tá, não vai acontecer nunca, estou falando mesmo só por falar.
Mas Moby Dick hoje me leva a uma reflexão. Por séculos o homem orgulhou-se de seu lugar na Criação, de dominar as forças da natureza.
Hoje somos obrigados a nos envergonhar disso. Na espiritualidade nascida na New Age que desembocou no ambientalismo moderno, a natureza é o centro da Criação divina, e um homem parte dela, tão importante quando uma urtiga ou um minhocuçu.
Sou politicamente incorreto dizendo que quero arpoar uma baleia, isso equivale hoje a uma verdadeira blasfêmia.
A proibição das touradas na Catalunha foi um sintoma disso. Uma tradição secular, inigualável nas cores e gestos, no contraste entre sol e sombra, homem e natureza, areia e sangue, graça e elegância e uma luta feroz, imortalizada por Picasso inúmeras vezes, hoje extinta com a canetada politicamente incorreta.
Ao contrário dos que pensam que esta luta simbolizava a arrogância humana, tanto o touro como Moby Dick existiam para trazer a humildade de volta aos homens, porque contra a Natureza, a despeito de nossas ilusões, nem sempre ganhamos.

Tuesday, July 27, 2010

The Politics of Bad Faith


David Horowitz é um judeu americano, nascido e criado em uma família socialista. Durante sua juventude, participou frequentemente de manifestações contra o governo americano, e foi um dos fundadores da chamada New Left no país.
A nova esquerda basicamente se dedicava a prosseguir na busca pela utopia socialista, separando-se das atrocidades do "socialismo real" reveladas por Krushev em 1957 com a abertura dos arquivos da era stalinista.
No entanto, ao repensar os argumentos da Nova Esquerda, Horowitz viu o quanto de absurdo havia no movimento revolucionário, e como os crimes do socialismo no mundo não haviam sido mero acidente de percurso como seus colegas queriam fazer crer, mas o destino mesmo de toda tentativa revolucionária. A utopia revolucionária torna aqueles que a proclamam os donos da verdade suprema, e portanto imunes ao erro. Em nome da utopia, tudo se torna permitido.
The Politics of Bad Faith reúne cartas e crônicas de David Horowitz, que contam como ele chegou a essa conclusão e de como ele, militante socialista, passou a ser um dos mais ativos pensadores conservadores dos Estados Unidos.
O livro traz sua argumentação lógica e clara, e fala das origens pseudo-religiosas do socialismo, conta porque seduziu tantos judeus (inclusive Marx) e da má fé que existe por trás de toda argumentação da Nova Esquerda que levou Obama ao poder em seu país.
Hoje, Horowitz dedica-se com a Front Page Magazine e através do David Horowitz Freedom Center combater os diferentes movimentos revolucionários, do socialismo ao gayzismo e ao islamismo, que separados ou mancomunados lutam para extinguir as liberdades individuais onde quer que estejam.
E a principal luta de Horowitz é para extirpar esse mal das universidades americanas, hoje aparelhadas com militantes do mais boçal anti-americanismo.

Wednesday, June 23, 2010

A Cegueira de Saramago


Nunca li Saramago, confesso, por preconceito. Sempre que lia suas declarações estapafúrdias defendendo gente como Fidel Castro ou atacando Cristo me causava repulsa.
O que terá este velhote a nos ensinar, me perguntava.
E sempre que folheei seus livros, seu estilo de escrita prezado por alguns como inovador me dava preguiça de ler. Como se escreve sem pontuação e nem parágrafos?
No entanto assisti o filme Ensaio sobre a Cegueira, principalmente por ser um fã de Fernando Meirelles e adorei. Provavelmente teria gostado do livro também, e prometo que um dia o lerei.
A metáfora de Ensaio sobre a Cegueira me pareceu perfeita. Vivemos hoje, sobretudo nas grandes cidades nessa espécie de cegueira branca, sem ver o lixo na rua, o sofrimento alheio, prostituindo-nos por dinheiro e brigando por poder.
E se ninguém nos enxerga, que mal há em utilizar-nos de qualquer meio para chegarmos aos nossos fins?
É óbvio, apesar de não mencionado na história, que Saramago vê no comunismo a saída dessa cegueira, a luz que deveria a todos guiar. É aí que reside sua cegueira, já que essa "luz" só trouxe fome, miséria e tirania ao mundo.
Para mim, a luz jaz em cada indivíduo, onde reside a fronteira entre civilização e barbárie. E pelo menos para nossa metade do mundo, foi a moral cristã que Saramago tanto ataca quem nos deu essa baliza.
Que descanse em paz e encontre a luz lá do outro lado.

Sunday, May 02, 2010

Pureza Fatal


O Iluminismo gerou Rousseau, Rousseau gerou Robespierre, Robespierre gerou o Terror.
Ninguém encarnou com mais profunda devoção os ideais da Revolução Francesa do que Maximilien Robespierre, um advogado de origem modesta e provinciana que fez uma meteórica carreira política durante a queda do Antigo Regime francês.
Para Robespierre, a revolução era o nascimento de uma nova França, onde todos seriam iguais, onde o poder seria exercido pelo povo, onde a razão prevaleceria, onde o Deus católico seria substituído por um Ser Supremo, onde os homens aspirariam ao bem e à virtude.
Em nome dessa utopia, Robespierre, tão cheio de sua virtude, tão incorruptível, desencadeou uma fase de violência e repressão nunca antes vista na história do mundo.
O Terror foi a matança em escala industrial bem antes dos campos de concentração e dos goulags, de cidadãos julgados e condenados tão somente por suspeitas de comportamento anti-patriótico. A guilhotina, recém inventada máquina de matar, funcionava centenas de vezes ao dia. Crianças foram massacradas em escola católicas, cidadãos inocentes e famintos metralhados nas ruas de Lyon, outros afogados às dezenas nos rios da Vendée.
Nem mesmo os próprios revolucionários escaparam à rede de intrigas e paranóias do Terror de Robespierre. Tudo o que era contra sua utopia, era contra a Revolução, e portanto contra o povo francês, e por isso passível de punição.
Pureza Fatal é o livro de estréia de Ruth Scurr, crítica literária e professora de História em Oxford e Cambridge, a biografia deste homem terrível e ao mesmo tempo tão banal com suas angústias, arrogâncias e complexos.
Claro e preciso, dá uma idéia exata da atmosfera em Paris naqueles tempos e um retrato detalhado de homens como Mirabeau, Marat, Danton, Brissot, Saint-Just, Camille Desmoulins e tantos outros que escreveram com sangue a loucura da Revolução.
Depois de Robespierre, muitos outros apareceram e aparecem, em diferentes lugares e tempos, com suas utopias, em nome das quais tudo era permitido, inclusive o derramamento desvairado de sangue inocente.
A História infelizmente parece não nos ensinar nada, se repete como uma idiota.

Sunday, March 28, 2010

Atheist Delusions


A história deles é conhecida e convictamente espalhada por aí. O mundo antigo criou as artes, a filosofia, a ciência. Veio o Cristianismo, e com o fim do Império Romano mil anos de trevas caíram sobre o mundo ocidental. O fanatismo religioso acabou com a ciência, despertou guerras sangrentas, causou a morte de milhares na Inquisição até que o Iluminismo viesse e a razão triunfasse finalmente separando Estado e Igreja. Agora é a hora de nos livrarmos finalmente desses dogmas absurdos e atrasados, resquícios de uma era de obscurantismo para que finalmente o homem e sua razão triunfem sobre a Terra.
David Bentley Hart em seu livro Atheist Delusions desmonta cada argumento desses, e não sobra nem pó. Ele só lamenta que tipos como Richard Dawkins, Daniel Dennet, Christopher Hitchens e Sam Harris, para citar só os ateístas militantes mais best-sellers do momento, sejam tão infinitamente mais pobres em argumentos, mais ignorantes em História, Filosofia e até na arte de escrever do que foram outrora outros ilustres críticos do Cristianismo como Voltaire e Nietzsche.
Com erudição sem par, David Bentley Hart fala dos primórdios do Cristianismo, da revolução causada na mentalidade antiga pela extraordinária idéia da caridade e do amor ao próximo como forma de salvação, em um mundo resignado com o destino e regido pela lei do mais forte. Fala de como a ciência e filosofias antigas foram salvas pela Igreja das ruínas romanas, e por ela preservadas e aperfeiçoadas nas universidades católicas. Fala de como as chamadas guerras de religião estavam muito mais ligadas ao surgimento do Estado moderno do que efetivamente a motivos religiosos. De como os tribunais da Inquisição na imensa maioria das vezes serviam mais para conter a fúria linchadora de uma população ignorante e de um poder secular desejoso de se mostrar eficiente do que para condenar inocentes à fogueira.
Fala também quão absurda é a crença no Absolutismo da Razão, dadas as terríveis experiências que vão desde a Revolução Francesa até as atrocidades genocidas do século XX. E de como vieram do Cristianismo frutos como a democracia, os movimentos abolicionistas e pelos direitos humanos, as organizações de caridade e até as liberdades democráticas e a noção de livre iniciativa.
A Igreja está, e não é segredo para ninguém, sob ataque constante. Ao atacarem a Igreja, instituição controlada e guiada por homens e portanto sujeita às falhas e erros destes, esperam destruir a idéia do Cristianismo, o que é um erro.
Convicção religiosa é um motivo poderoso para matar? Certamente sim. Mas é também é o único motivo para não matar, para compreender, para buscar a paz, para perdoar. E só uma profunda ignorância da história poderia deixar de reconhecer isso.
Cristãos tem a obrigação de não esquecer a inclinação humana para a violência, e nem quantas vítimas essa violência já fez, pois adoramos um Deus que não apenas toma o partido dessas vítimas mas que foi ele mesmo uma delas, brutalmente torturado e assassinado pelos poderes da sociedade dos homens.
Hoje, a figura do Cristo humilhado e torturado na cruz nunca mais pode ser vista como algo por assim dizer ridículo ou depreciativo. Mesmo os piores de nós, criados à sombra da Cristandade são incapazes de ignorar o sofrimento de alguém sem violentar a própria consciência.
Mas hoje vivemos em uma sociedade de consumo que quer a liberdade total. Essa é a única premissa da modernidade. A idéia de religiosidade moderna transformou-se num supermercado espiritual, pegamos uma aula de meditação zen budista aqui, um tarô ali, um dream catcher na feirinha de antiguidades, uma imagem de Shiva na estante, runas escandinavas, um santinho no quarto e arruda atrás da porta. Mas tal como queremos liberdade na hora de consumir, queremos liberdade de escolha total em nossa vida, sem que nenhum ranço antiquado de moralidade cristã venha nos atrapalhar. De fato preza-se mais o poder de escolher, do que a escolha (e suas conseqüências) realmente feita.
A pergunta que o autor faz ao final de sua dissertação é: tire-se que cristianismo de nossas vidas. O que vem depois? Nenhum dos famosos ateístas respondem a isso, embora já vejamos defensores de idéias como aborto e eutanásia falarem em nome da Razão. Outros falam em clonagem e manipulação genética de humanos. Será essa verdadeiramente a Razão, ou estamos entrando em uma era de irracionalidade disfarçada, de niilismo ilimitado?
Razão, no senso cristão do termo, é o conhecimento balanceado por virtude, paciência, humildade, prudência e sabedoria. A razão irracional da liberdade pura é o “humanismo total” dos homens sem Deus, e pode ser extremamente perigosa.

Wednesday, March 24, 2010

O perigo da história única

Por Chimamanda Adichie, escritora nigeriana:



Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de chamar "o perigo de uma história única." Eu cresci num campus universitário no leste da Nigéria. Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente mais próximo da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos.
Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. (Risos) E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido. (Risos) Agora, apesar do fato que eu morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos sobre o tempo porque não era necessário.
Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre porque as personagens dos livros britânicos que eu lia bebiam cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. (Risos) E por muitos anos depois, eu desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é uma outra história.
A meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história, principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros,
mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.
Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.
Eu venho de uma família nigeriana convencional, de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe, administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: "Termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?" Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide.
Então, um sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.
Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. I tinha 19 anos. Minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como sua língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha "música tribal" e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey. (Risos) Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão.
O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais.
Eu devo dizer que antes de ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim. Não importava que eu não sabia nada sobre lugares como a Namíbia. Mas eu acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi meu maravilhoso voo dos Lagos 2 dias atrás, não fosse um anúncio de um voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na "Índia, África e outros países." (Risos)
Então, após ter passado vários anos nos EUA como uma africana, eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando criança, havia visto a família de Fide.
Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561 e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros africanos como "bestas que não tem casas", ele escreve: "Eles também são pessoas sem cabeças, que têm sua boca e olhos em seus seios."
Eu rio toda vez que leio isso, e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias africanas no Ocidente. Uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta, Rudyard Kipling, são "metade demônio, metade criança".
E então eu comecei a perceber que minha colega de quarto americana deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que meu romance não era "autenticamente africano". Bem, eu estava completamente disposta a afirmar que havia uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em vários lugares. Mas eu nunca teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era "autenticidade africana". O professor me disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanos.
Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinônimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa.
Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalajara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que meu primeiro sentimento foi surpesa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mída sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma. Então, é assim que se cria umaúnica história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.
É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é "nkali". É um substantivo que livremente se traduz: "ser maior do que o outro." Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do "nkali". Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.
Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com "em segundo lugar". Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.
Recentemente, eu palestrei numa universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como a personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado "Psicopata Americano" - (Risos) - e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série. (Risos) (Aplausos) É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação. (Risos)
Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era, de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas, devido ao poder cultural e econômico da América, eu tinha muitas histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América.
Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deveriam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo. (Risos) Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida.
Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Um dos meus amigos mais próximos, Okoloma, morreu num acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então, por vezes, meus pais não recebiam seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café-da-manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas.
Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história.
Claro, África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem- se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas.
Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.
E se antes de minha viagem ao México eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de Fide era pobre E trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama "um equilíbrio de histórias."
E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho em um banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que pessoas que podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles.
Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio a mim e disse: "Eu realmente gostei do seu romance, mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer... " (Risos) E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu não estava apenas encantada, eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns de nigerianos, que não se supunham ser leitores. Ela não tinha só lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência.
Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV em Lagos, e que está determinada a contar as histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega de quarto soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital de Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela, de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse sobre a advogada que recentemente foi ao tribunal na Nigéria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios e às vezes fracassam, mas continuam a fomentar ambição?
Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo verão. E é extraordinário pra mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias.
Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.
A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinham deixado para trás. "Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado. " Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso. Obrigada.

Tuesday, February 23, 2010

L'Empire Écologique


A Perestroika não foi o fim do socialismo sob uma irresistível pressão democrática. Foi uma reestruturação do socialismo meticulosamente planejada. Estando o pensamento de esquerda plenamente difundido em todo o mundo, o objetivo da perestroika seria inaugurar uma nova fase do socialismo a nível mundial.
Depois da queda do muro de Berlim, era necessário encontrar um objetivo comum a toda a humanidade que pudesse servir de causa e de pretexto para um governo mundial. A ecologia caiu como uma luva para prestar esse serviço.
O buraco na camada de ozônio, baseado em modelos falsos, foi um ensaio para a implantação de mecanismos controladores da economia e do comportamento das pessoas. O efeito estufa, também baseado em modelos falsos e previsões propositadamente catastróficas seria a continuação em uma escala mais ampla destes mecanismos.
Através de técnicas não-aversivas baseadas em Gramsci, pelo sistema de ensino e pela mídia,o ambientalismo torna-se uma idéia hegemônica em toda a sociedade. A Teoria de Sistemas mostra como sistemas superiores de organismos internacionais põem em movimento sistemas inferiores em blocos econômico, governos, estados, comunidades, escolas, cadeias de produção, empresas até indivíduos, que em reação acabam reforçando os sistemas superiores. Sob aparente ilusão de liberdade no caos, todos eles, direita ou esquerda caminham em direção ao objetivo pré-fixado pelos sistemas superiores.
A globalização e a formação de blocos econômicos torna as nações interdependentes. O poder de decisão passa cada vez mais de comunidades locais para instâncias superiores.
A fictícia ameaça ecológica, tratada como sistêmica e transversal afeta toda a população mundial. Iniciativas regionais e localizadas não são suficientes para detê-la. É preciso mecanismos internacionais que controlem as emissões de carbono, o planejamento do uso de terras e da água, em suma a economia e o desenvolvimento das nações.
Através de sanções econômicas, empresas dos países desenvolvidos são obrigadas a transferir atividades para países em desenvolvimento. Habitantes dos países desenvolvidos são obrigados a rebaixar seu nível de vida para cortar emissões. A luta de classes é levada a um plano internacional, tudo controlado por instâncias internacionais cada vez mais autoritárias e poderosas.
Finalmente, o ambientalismo pretende redefinir a espiritualidade humana. O judaísmo e o cristianismo são atacados por colocarem o homem no centro da vida espiritual como ser querido e pretendido por Deus. Ao invés disso a ecologia é usada como um denominador comum a todas as religiões em uma volta ao paganismo primitivo onde a natureza é a Mãe Criadora (e não obra do Criador). O indivíduo deixa de existir como tal para se tornar no coletivo parte da biosfera tão importante como qualquer mosquito ou plâncton. O homem deixando de existir como sagrado abre-se espaço para o aborto, a eutanásia, a eugenia e outros mecanismos de controle de uma população indesejável.
No futuro voltaremos a viver em vilastransformadas em goulags ecológicos, sem máquinas nem progresso, adorando a natureza como os povos primitivos e onde delegamos nossa consciência às organizações que comandam nossa vida.
Encomendei o livro l’Empire Écologique de Pascal Bernardin pela Amazon.fr. Infelizmente não há traduções em português, o que é uma pena já que este livro poderia abrir as mentes de muitos brasileiros “engajados” para um outro ponto de vista sobre o movimento ambientalista. O que vai acima são algumas das conclusões a que o livro nos leva.
Podemos ignorar o que diz este jornalista, engenheiro e escritor, já que o que ele relata é ignorado pela mídia. Podemos acusá-lo de delírio reacionário ou conspiratório. Mas para todas essas conclusões, Pascal Bernardin nos presenteia com evidências de inúmeras fontes de documentos internacionais da ONU, UNESCO, FAO, OMC, Comissão Trilateral, Clube de Roma, União Européia, Council of Foreign Relations, Banco Mundial e muitas outras. E elas comprovam o que o autor diz.
Isto tudo não tem nada a ver com o “bem da humanidade”. Trata-se sempre do mesmo projeto de poder totalitário. Estes iluminados pré-definem o fim da História, e traçam o caminho que nos levará até a sua utopia. Nós estamos vendendo nossa alma a eles.

Wednesday, February 17, 2010

História Politicamente Incorreta


O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil é um livro irritante. Não para mim que o achei sobretudo divertido, mas para aqueles que gostam de usar e abusar de preconceitos e idéias arraigadas no inconsciente coletivo brasileiro.
Muita de nossa história foi escrita atendendo determinados pontos de vista, principalmente com aquela tentação típica da academia brasileira de fazer justiça social com a própria pena. O jornalista Leandro Narloch traz à tona alguns fatos que desmentem essas versões politicamente corretas, o que faz dele o cri-cri da hora para essa turma.
Narloch explica por exemplo que Zumbi dos Palmares longe de ser o líder solidário dos escravaos, era provavelmente ele próprio escravagista e aristocrata. Santos Dumont não inventou mesmo o avião. A Inglaterra tentou evitar que o Brasil entrasse em guerra com o Paraguai. O Paraguai não era um país justo e com desenvolvimento incipiente, era uma ditadura cruel, e o maior culpado pelo genocído paraguaio foi a estupidez do próprio Solano López. Os guerrilheiros da esquerda que hoje está no poder não lutavam pela democracia, lutavam por uma ditadura comunista. Os primeiro sambistas liam partituras européias, tocavam instrumentos clássicos e gostavam de jazz.
Mas para mim o primeiro capítulo é o mais interessante. Hoje anda muito em voga uma certa antropologia de miolo mole que quer cercar índios em reservas gigantes isolando-os da civilização. É uma idéia amplamente difundida a de que os índios viviam aqui em harmonia com a natureza até a chegada dos europeus que os exterminaram.
A coisa não foi bem assim. Para começar os índios no Brasil viviam ainda no Neolítico, com instrumentos de pedra e madeira, praticavam um aagricultura rudimentar e não domesticavam animais. Guerreavam-se e matavam-se o tempo todo. Promoviam queimadas homéricas na floresta tanto para abrir áreas para roças como para caçar animais que ficavam cercados pelo fogo. Quando a terra exauria-se, mudavam.
Quando os portugueses chegaram, entraram em contato com novas tecnologias, animais e plantas, como aço, cavalos, galinhas. Foram os índios os mais contentes com as novidades. Aproveitaram os portugueses para fazerem alianças e continuarem a guerrear contra seus inimigos. Participavam alegremente de excursões para escravizar outras tribos e derrubar pau-brasil. Os portugueses em muito menor número não conseguiriam nunca ter sucesso na colonização sem a ajuda dos índios. E enquanto Portugal promulgava leis de proteção ambiental, os índios queriam vender mais pau-brasil.
E se doenças trazidas pelos colonizadores mataram milhares de índios, o inverso também foi verdadeiro. Só a sífilis, levada das Américas à Europa por navegadores causou horrores na Europa. Se o álcool fez e faz miséria entre os índios, o tabaco, costume indígena levado à Europa, com certeza matou muito mais.
Alega-se que apopulação indígena tenha sido dizimada pelos colonizadores. Nessa contabilidade parcial, esquece-se de contar quantos índios miscigenaram-se formando a imensa população mestiça brasileira, e quantos descendentes de índios, hoje vivendo na costa brasileira (caiçaras) e em cidades como Campo Grande, Manaus ou Belém não declaram-se mais como índios nos censos.
O Guia chacoalha um pouco as idéias...

Wednesday, February 03, 2010

Sherlock Holmes


Eu li toda a obra de Conan Doyle. Sei exatamente como era o Sherlock literário imaginado por Doyle.
Em aparência é verdade que Sherlock Holmes estava muito mais para Basil Rathbone do que para Robert Downey Jr. E no entanto, assim como o James Bond de Daniel Craig, achei que esse outro ícone britânico merecia uma repaginada no cinema.
Bond deixou de ser o cara de pau meio cafajeste e irônico para se tornar o assassino fleugmático, físico e brilhante que um agente secreto deve ser, sem no entanto perder o que lhe faz ser Bond.
O Sherlock Holmes de Downey Jr. também é mais físico, sem perder a agudeza mental. E esse ar de superioridade irritante é a especialidade do ator. A dupla com o Watson de Jude Law fica melhor ainda. Perde-se aquela imagem de Dom Quixote e Sancho Pança e o que vemos é uma dupla que realmente se completa em qualidades e defeitos.
Além do mais é divertido ver o detetive em vez daquele ar sério de lupa e cachimbo torto de ressaca em casa, fazendo experimentos estranhos, brigando na ruae sacaneando o Watson em um cenário fantástico da sombria Londres vitoriana.

E vale a pena a música divertida do filme também. Aqui, The Dubliners:

Friday, January 22, 2010

O Guia Lopes da Laguna


O relato abaixo é do Visconde de Taunay, descrevendo a figura de José Francisco Lopes, o Guia Lopes da Laguna. Seria ele quem guiaria por aquele território e sustentaria com seus bois a tropa do Coronel Camisão, encarregado pela Coroa de repelir os paraguaios que haviam invadido o Mato Grosso em 1864.
Lopes era pecuarista no então longínquo sertão do Mato Grosso. O que Taunay descreve dá uma idéia aos desmemoriados da forma como o território brasileiro foi conquistado
:

"Tivera, desde a infancia, o pendor pelas entradas nos sertões brutos.
Contava-se também que um ato violento, da primeira mocidade, lhe impusera, durante algum tempo, este modo de vida. Viera depois a idade desenvolver-lhe todas as aptidões. Prodigiosamente sóbrio, viajava dias inteiros sem beber, trazendo à garupa da cavalgadura pequeno saco de farinha de mandioca, amarrado ao pelego macio, que lhe forrava o selim.
Jamais deixava o machado destinado a cortar palmitos. Nascido na vila de Piumhi, em Minas Gerais, dali, ao léu das aventuras, havia atingido todos os pontos da área que
se estende das margens do Paraná às do Paraguai.
A fundo conhecia as planicies que entestam com o Apa, divisa do Brasil e do Paraguai. Numerosas localidades até então virgens do pé humano, até mesmo selvagem, percorrera e a várias batizara (Pedra de Cal, entre outras).
Tomara, em nome do Brasil, posse, ele só, de imensa floresta, no meio da qual chantara uma cruz, grosseiramente falquejada, onde esculpira a inscrição P II (Pedro Segundo), imponente madeiro, perdido no recesso dos desertos.
Criava a iniciativa do sertanista domínios ao soberano.

Numa viagem para estudar a navegação do rio Dourado, afluente do Paraná, gravemente ferira a planta do pé, acidente de que jamais pudera curar-se. Um dia. como lhe víssemos a chaga, semicicatrizada, sempre a sangrar, disse-nos: "Prometeu-me o governo dar-me, a título de recompensa, trezentos mil-réis, mas nunca os pagou. Perdoei-lhe a divida; o que se me devia era uma condecoração; já a tenho e nada mais quero".
Durante sete anos, com a família, residira no Paraguai; mas no momento da invasão já estava de volta ao solo brasileiro, habitando, à margem do rio Miranda, uma propriedade sua, que batizara Jardim, fertilizada por seu trabalho e o dos filhos já crescidos. Ele e a mulher, D. Senhorinha, generosamente hospedavam quantos ali fossem ter.
Quando, em 1865, irromperam os paraguaios em território brasileiro, conseguira escapar-lhes, mas único da família, que caíra toda em poder do inimigo e fora transportada para a aldeia paraguaia de Horcheta, a sete léguas da cidade de Concepción. Com ela vivia o coração do velho guia.
Por todas estas razões, nele encontrou o coronel Camisão apaixonado adepto.
Desde que, dando-lhe a conhecer os seus projetos, acenou a José Francisco Lopes com o ensejo de, como guia da expedição, ir ter com a familia e vingar-lhe os agravos, empolgou o espirito do sertanista brasileiro, que, apesar de todo o ardor, jamais perdeu, contudo, a perfeita intuição das conveniências.
Assim, nunca esquecendo a modéstia da posição, freqüentemente dizia: "Nada sei, sou sertanejo; os senhores que estudaram nos livros é que sabem".
Era-lhe o orgulho num único ponto irredutivel, no que tocava ao conhecimento do terreno, legitima ambição, além do mais, pois dela nos proveio a salvação.
"Desafio, exclamava, todos os engenheiros com as suas agulhas (bússolas) e plantas. Nos campos da Pedra de Cal e Margarida sou rei. Só eu e os indios Cadiuéus conhecemos tudo isto".

A Retirada da Laguna, Visconde de Taunay

Wednesday, December 16, 2009

Reinaldo Azevedo


Eu comecei a ler Reinaldo Azevedo quando ele fazia a revista Primeira Leitura. Eu nem me interessava tanto assim por política antes de Primeira Leitura. Tinha essa atitude blasé burgeois chic do "são todos iguais" ou "não me meto em sujeira".
Primeira Leitura me fez pensar diferente porque olhava a política, e todo o resto, de uma perspectiva nova. O jornalismo em geral tem dois grandes defeitos. O primeiro é que todo jornalista saído da faculdade se acha, como o próprio Reinaldo disse, um pequeno revolucionário do teclado. Seria preciso um livro para explicar o histórico dessa infiltração gramsciana nas faculdades brasileiras (e no mundo), mas a verdade é que a classe de profissionais que supostamente deveria ser a mais bem informada da sociedade é uma das que se deixa mais facilmente manipular pela ideologia. O segundo é que jornalista acha que tem que ser isento e equilibrado sempre. É mentira porque há assuntos sobre os quais não pode existir isenção. A defesa da liberdade, da democracia, do estado de direito tem um lado só. Jornalismo sério não pode defender mensalão, não pode defender o MST, não pode defender censura como quer a Confecom, não pode defender Zelayas e Chávez e terroristas.
Reinaldo Azevedo me conquistou com seus textos porque nunca se deixou pautar por essa falsa isenção, pelos consensos, pela ditadura de maiorias e minorias que se pretendem donas da verdade. Fazia isso na Primeira Leitura e continua fazendo hoje em seu blog.
E nisso nossos pensamentos coincidem. O País do Petralhas mostra sua uma defesa apaixonada do Estado de Direito e da responsabilidade individual, sua luta contra a intromissão do estado em nossas vidas privadas, seu respeito aos princípios cristãos que fundaram a civilização ocidental e mostra como a petralhada joga tudo isso no lixo para manter-se no poder. Essas são algumas das razões pelas quais admiro seu trabalho diário.
Seu livro de frases Máximas de um País Mínimo resume seus pensamentos em frases que são primores de lógica, bom senso, humor e moral.
E para quem acha que ele é um arrogante frustrado, deveria conhecê-lo pessoalmente, ouvi-lo falar e ver como seu pensamento é límpido e brilhante, assim como seu humor e simpatia.
Quem não gosta que compre o jornalismo estilo Granma. Eu acho que o Granma só serve pra fazer o que os cubanos fazem com ele.

Eu e o Rei


Reinaldo Azevedo autografando meus exemplares de "O País dos Petralhas" e "Máximas de um País Mínimo" na Livraria Cultura.

Encontrei ali a Letícia do Flanela Paulista, blog do qual sou fã de longa data pela inteligência e humor que aparecem a cada post. Agora que sou paulistano o Flanela virou meu guia da cidade, e a Letícia uma nova amiga que passou de virtual a real...Obrigado pela recepção!

Wednesday, October 28, 2009

Everardo, o Idiota


Elio Gaspari tem Eremildo, o Idiota. Eu tenho Everardo, o Idiota.
Everardo dá plantão de comentários no meu blog. Acho que o Reinaldo Azevedo nunca publicou um comentário dele, então o Everardo migrou para cá. Quando eu parei de publicar os comentários dele, ele foi dar plantão no blog do Bruno Pontes.
Mas o Everardo não deve levar a mal o Idiota do título. Não é uma ofensa pessoal. É que eu acabei de ler o Manual do Perfeito Idiota Latino Americano, de Alvaro Vargas Llosa, Plinio Apuleyo Mendoza e Carlos Alberto Montaner. Me foi emprestado por outro blogueiro reacionário e direitista, meu amigo Augusto.
O fato é que Everardo (que não é um, é uma legião) se encaixa perfeitamente na descrição do perfeito idiota latino americano. Everardo acredita no Estado benfeitor, aquele criado nos tempos de Vargas e Perón. O mesmo tipo de Estado que levou o continente inteiro à ruína econômica enquanto por exemplo os tigres asiáticos, que na década de 50 eram mais pobres do que os latinos, se desenvolviam a um ritmo muito maior.
Everardo credita todos os males do continente ao capitalismo e ao neoliberalismo, sendo que estes nunca existiram de verdade em uma América Latina sufocada sob as garras do Estatismo, e só agora começam a aparecer, graças a Deus. Curiosamente, o país que melhor conseguiu se livrar da pobreza no continente, o Chile, foi o único a optar por um maior liberalismo na economia.
Everardo acredita que Zelaya não quer dar um golpe e perpetuar-se no poder, como Chávez fez, e como Ortega, Evo Morales, Rafael Correa querem fazer.
Everardo acha que o mensalão nunca existiu, e que é normal o PT estar no poder junto com Sarney, Maluf e Renan Calheiros. Se Jesus se aliaria até a Judas no Brasil como diz o Lula, porque ele não pode?
Everardo chama os Estados Unidos de Império, e como todo bom idiota latino americano acha que os Estados Unidos ficaram ricos deixando o resto do mundo mais pobre, especialmente os latinos. Para ele, os ricos só querem vir aqui roubar nossas riquezas e matérias primas, que não teríamos onde enfiar se não fossem as exportações.
Everardo acha por exemplo que a Vale deveria ser estatal, embora como empresa privada tenha multiplicado patrimônio, divisas e empregos. Privatizar a Petrossauro então nem pensar.
Cansei de Everardo. Recomendo-lhe que leia o livro em vez de infestar o blog dos outros com suas boçalidades. O blog é meu. A web é democrática. Faça seu próprio blog com suas idéias brilhantes e suas apologias de ditadores e assassinos.

Tuesday, October 06, 2009

Zuenir Ventura e a violência


Fui ver Zuenir Ventura falar sobre a cultura da violência em um evento chamado Diálogos Contemporâneos, uma bela iniciativa da prefeitura de Campo Grande.
Zuenir passou dez meses na favela de Vigário Geral no Rio de Janeiro para entender a história da trágica chacina e ver de perto as origens da violência na guerra urbana do Rio. Aí nasceu seu livro Cidade Partida.
Como ele mesmo admite, no tempo em que todos os intelectuais eram marxistas, era lugar comum dizer que o homem era produto de seu meio, e que a violência seria fruto da miséria. Argumento que hoje ele percebe ser uma grande bobagem.
Em primeiro lugar, ele mesmo constatou que na favela, uma mínima porcentagem de pessoas está ligada ao tráfico e ao crime. A grande maioria é de trabalhadores que vive ali porque é onde puderam achar lugar na cidade. Dizer que miséria gera crime é na prática ofender a quem é pobre e vive honestamente, já que este não tem culpa da violência.
Os dois protagonistas de Cidade Partida nasceram e viveram sob as mesmas exatas condições. Um tornou-se sociólogo, líder da comunidade e depois ameaçado foi viver nos EUA. O outro virou chefe do tráfico e morreu em um tiroteio.
Há portanto outros caminhos para a violência, que não passam necessariamente pela condição social do indivíduo, e sim por escolhas que lhe são oferecidas.
Ao visitar uma obra de assistência que tirava crianças do crime, ele lembra de ter-se perguntado "como é que há tantas crianças no tráfico?". Depois de conhecer suas histórias e a absoluta falta de perspectivas de vida na favela perguntou-se "como é que não há mais crianças no tráfico?".
E a percepção que o jornalista e escritor tem da violência é que esta na verdade há muito saiu da favela e impregnou-se na sociedade carioca (e o que vale lá vale também em diferentes escalas para o resto do Brasil). Está no trânsito, no jeitinho, nos subornos, nos pit-boys que batem em empregadas, no bullying nas escolas, no culto da porrada, nas madames que levam os cachorrinhos fazer cocô na calçada pública, nos políticos e policiais corruptos, em todos os lados. É o que ele batizou de cultura da bandalha, uma cultura estimulada pela impunidade, pelo exemplo que vem dos altos escalões, por uma legislação falha e por uma polícia com grande parte podre.
Perguntei-lhe se a classe média alta da Zona Sul, a grande consumidora do tráfico não tinha noção de estar alimentando a violência. Zuenir diz que a mentalidade dominante é aquela que diz o problema é sempre dos outros. Até que as balas perdidas lhes comecem a chover nas cabeças. Mas ele não acredita na guerra contra o tráfico, acha que ninguém vai ganhar. É do partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que defende a descriminalização do uso, ou que pelo menos o tema seja debatido pela sociedade.
Zuenir foi inteligente, coerente, sincero. Mas nesse ponto eu permito-me discordar. Primeiro vamos resolver o problema da polícia podre, da impunidade, da corrupção e aí vamos pensar nessa tal descriminalização.
Até lá eu sou da opinião do Capitão Nascimento. Tá vendo aquele corpo ali? Quem matou? Foi tu, maconheiro.

Friday, July 24, 2009

O caminho da servidão


“Eu vejo uma inumerável multidão de homens parecidos, que se reviram sem repouso procurando pequenos e vulgares prazeres com os quais eles possam encher suas almas.
Acima deles eleva-se um imenso, tutelar poder, que se encarrega por inteiro de assegurar seu divertimento e vigiando seu destino. Ele é absoluto, atento aos detalhes, regular, providente e gentil. Ele se assemelharia a um poder paternal, se como este poder tivesse por objetivo preparar meninos a serem homens, mas ao contrário, ele busca mantê-los irrevogavelmente presos à infância...providencia sua segurança, prevê e lhes fornece o necessário, os guia em seus negócios...
O soberano estende seus braços sobre a sociedade como um todo, cobre toda ela com uma rede de pequenas regulamentações – complicadas, minuciosas e uniformes – através das quais mesmo a mais originais mentes e as mais vigorosas almas não saberão como fazer seu caminho... Não destrói desejos, mas atenua-os, modifica-os, redireciona-os; raramente força alguém a agir, mas constantemente se opõe a que alguém aja por si só... não tiraniza, entra no caminho. Limita, enerva, extingue, estupefaz, e finalmente reduz uma nação a ser nada mais do que um rebanho de animais tímidos e servis, do qual o governo é o pastor.”

Esse texto poderia estar descrevendo o Estado de burocracia em que se transformou a União Européia ou em que estão se transformando os EUA de Barack Obama neste século XXI. Mas foi escrito por Tocqueville há mais de um século, quando nos alertava para os riscos de uma volta à tirania depois das conquistas das revoluções francesa e americana.
A passagem é o ponto de partida do livro Soft Despotism, Democracy’s Drift de Paul A. Rahe’s, analisado na New Criterion por Mark Steyn.
A nova forma de despotismo chega de forma gentil. Nos diz que temos direito à moradia, direito à aposentadoria, direito a um emprego, direito a um plano de saúde, e agora como novidade direito à segurança ambiental e alimentar. As ofertas são tão tentadoras que a maioria das pessoas abdica facilmente da própria liberdade em troca dessa segurança providenciada pela mão estatal. Mas a cada vez que nos empurram um desses direitos, nos arrancam nossa liberdade, nossa responsabilidade e a capacidade de decidir nosso próprio destino.
A tirania torna-se mais e mais grave à medida em que o Estado começa a centralizar todas as decisões, retirando gradualmente o poder de estados e municípios. Hoje, a tecnologia tornou possível que um governo mesmo distante consiga controlar as decisões e a vida de seus cidadãos, criando uma burocracia gigantesca. Obviamente decisões que afetam a vida de cidadãos em um determinado local podem ser tomadas com muito mais propriedade por eles mesmos do que um burocrata distante.
Infelizmente, na Europa, nos EUA, no Brasil e em todo lugar as pessoas passaram a acreditar que é o Estado quem deve ser responsável pelo que fazem, pelo que são, como vivem e às vezes até o que pensam. A descentralização do poder é a única alternativa para evitar a tirania.
O Professor Rahe escreve: “A dignidade humana depende da capacidade de tomar a responsabilidade pelos próprios atos. Podemos ser o que fomos um dia, ou escolher uma descida gentil e gradual para a servidão”.

Monday, June 01, 2009

Liberty and Tyranny


Contardo Calligaris afirmou certa vez em entrevista a Reinaldo Azevedo que o Iluminismo anglo-saxão sempre foi preterido pelos intelectuais quando comparado ao Iluminismo francês. No entanto, gerou a Revolução Americana, e a Magna Carta na Inglaterra. Na França, a Revolução Francesa iria gerar o Terror, Napoleão Bonaparte, a restauração dos Bourbon e Napoleão III. Depois da Revolução, a França levaria ainda um século para se tornar uma República.
Mas foram as idéias dos iluministas anglo-saxões, John Locke, Adam Smith, Edmond Burke e também de alguns franceses como Montesquieu que deram as bases da Revolução mais importante da história do mundo Ocidental, a Revolução Americana. Foram esses pensadores que influenciaram as idéias dos Founding Fathers americanos que com a Declaração de Independência e a Constituição estabeleceram as bases daquela que seria a nação mais livre e próspera do mundo.
Em seu livro Liberty and Tyranny, Mark Levin, um dos líderes do pensamento conservador na América contemporânea, fala de como os Estados Unidos hoje estão se afastando dos princípios que fundaram o país. A América original estaria sendo pouco a pouco estrangulada e subjugada pelo câncer do Estatismo, Mark Levin defende, como todo conservador deve defender, o direito de cada indivíduo viver livremente em busca da própria felicidade, o livre mercado, o Estado de Direito, o direito à propriedade, a descentralização do poder, a limitação do poder central, a preservação da sociedade civil, a tradição e a fé como formas de manter a identidade cultural de um povo.
Já o Estatista, que é como ele identifica os liberais (esquerdistas) modernos, acredita na supremacia do Estado. Para o estatista, indivíduos são criaturas imperfeitas, e a busca individual de cada um impede o objetivo de criar um estado utópico coletivo para o bem de todos. A agenda do estatista cria aquilo que o francês Alexis de Tocqueville chama de tirania leve, que progride constantemente em direção à tirania totalitária pura e simples.
Mark Levin identifica o nascimento do Estatismo moderno no New Deal de Franklin D. Roosevelt, que fez o governo federal intervir no mercado para diminuir os efeitos da crise de 29 e criou os primeiros programas assistencialistas. Segundo estudos econômicos de hoje, o New Deal fez a crise de 29 durar muito mais tempo do que se não houvesse interferência. O intervencionistas e os programas assistencialistas de atendimento médico e previdência foram depois ampliados por governos democratas e agora chegam ao auge com Obama, com seus bailouts trilionários e com seu projeto de dar assistência médica universal a todos gerando uma dívida impagável para futuras gerações. O estatismo também tomou conta do sistema judiciário que interpreta a Constituição como quer, tomou conta da economia pedindo mais interferência do Estado, mais assistencialismo, distribuição de riquezas. Tomou conta dos movimentos ambientais que querem regular desde o consumo de energia de cada um até o uso de defensivos agrícolas. Está em resumo em todos os lugares, pedindo mais interferência do Estado, mais controle, mais impostos, diminuindo as liberdades e direitos individuais.
O livro de Mark Levin não é só uma leitura fundamental para conservadores americanos. Aqui mesmo no Brasil o Estatismo tem bem mais defensores do que lá, e os Conservadores contam-se nos dedos. Liberty and Tyranny é um Manifesto Conservador, é uma obra essencial para qualquer conservador, com idéias e projetos para evitar que o Estatismo se aprofunde ainda mais e que a tirania se instale.
Um conservador é sobretudo alguém que acredita no próximo, na capacidade de cada indivíduo, respeitando o direito dos outros, decidir o próprio destino. É no que eu acredito.

Tuesday, May 12, 2009

A Democracia Ameaçada


Denis Lerrer Rosenfield é filósofo, escritor, professor da UFRS. É também um dos mais argutos pensadores do país, e um dos que com mais clareza enxerga as armadilhas da esquerda no poder. Seus críticos o chamam direitista como se isso fosse ofensa.
Rosenfield é de direita como eu sou de direita. Como alguém que acredita na democracia e no capitalismo como ferramentas para que cada indivíduo possa evoluir com liberdade. Para que cada um busque livremente o caminho da própria felicidade. Não acreditamos naqueles que nos vendem utopias, que se auto proclamam profetas de um mundo melhor, que solapam as instituições e se agarram ao poder para impor aos outros a própria loucura. Nesse sentido, a Democracia Ameaçada é um obra fundamental para entender o Brasil do nosso tempo. Denis Lerrer Rosenfield analisa a esquizofrenia petista, entre a teoria na propaganda e a prática no poder. Ele fala das diferentes tendências petistas, do pragmáticos do campo majoritário aos leninistas da democracia social. De como FHC e o “neoliberalismo” se transformaram no novo bode expiatório das esquerdas.
Fala do uso da democracia participativa como forma de controlar decisões e minar a democracia representativa.
Lerrer evidencia a novilíngua petista, onde comunismo vira “uma sociedade justa e solidária’, os atentados contra a democracia viram “uma refundação do contrato social” e militância vira “cidadania”.
E fala principalmente da conivência com as ilegalidades cometidas em nome da “causa”, principalmente no que concerne o MST.
Analisando o MST, seus textos e hinos e suas diretrizes, Rosenfield mostra o objetivo real do MST, o combate ao capitalismo e à propriedade privada para instalar um regime marxista no Brasil. Mostra como os militantes são ideologicamente preparados desde crianças, e como o martírio pela causa encaixa na teologia da libertação e sua opção preferencial pelos pobres, como se condição social fosse pré requisito para a redenção. As Pastorais da Terra junto com o MST criaram uma religião marxista como se isso fosse possível, idolatrando por exemplo Che Guevara a despeito das centenas de cristãos que ele fuzilou.
O Reino de Deus do MST e da CPT é a utopia marxista na Terra. O MST e seus excluídos são o Povo escolhido, a luta pela causa seu martírio, e a revolução a redenção final.
É evidente que a reforma agrária é uma desculpa para o MST, já que ele não se interessa a mínima por que seus assentados se dêem bem na vida. Os índices de produtividade de assentamentos são a prova disso, assim com a falta de liberdade de ir e vir. O que o MST quer é sangue para a causa, como mostrou há poucos dias no Pará.

Wednesday, April 22, 2009

Mulheres


Fui ao teatro assistir “Os Homens são de Marte...e é para lá que eu vou!”, um hilário monólogo de Mônica Martelli sobre as agruras da balzaquiana moderna à procura da tampa para sua panela. Sua personagem, Fernanda, é uma daquelas mulheres com mais de 30 anos, bela e bem sucedida que se decepciona irremediavelmente a cada vez que pensa ter encontrado o homem de sua vida.
Passam do “ele é tuuuuuudo de bom” ao “não era pra seeeeer!” em um piscar de olhos.
É engraçado notar como as mulheres ainda não sabem o que fazer com uma liberdade duramente conquistada durante séculos.
Hilary Mantel fala na New York Review of Books da obra History of Women - from Eve to Dawn, de Marilyn French, um calhamaço de quatro volumes e mais de 1800 páginas sobre a história da mulher no mundo. Pela crítica, a obra que levou quinze anos para ser concluída por French, é um rosário raivoso de desgraças onde mulheres são descritas como objetos, escravas, mercadorias, mão de obra barata e por muitas vezes como a encarnação do demônio ou algo parecido. Segundo French, o poder sobre uma mulher é frequentemente o único poder que um homem exerce, já que ele mesmo é dominado por outros homens. O pior é que isso ainda acontece no mundo atual, mesmo naqueles países ditos civilizados. Matrioshki é uma excelente série belga (no ar na HBO) sobre o horror do tráfico de mulheres arrancadas dos confins mais miseráveis da Tailândia, Indonésia, da antiga União Soviética e até do Brasil e levadas à prostituição nas capitais européias (Agora um revolucionário projeto de lei sueco pretende multar os homens que vão à procura das prostitutas nas ruas em vez de prender as desgraçadas que estão lá).
Mesmo assim, pelo menos no Ocidente, nunca uma mulher teve tanta liberdade nas decisões sobre a própria vida e o próprio corpo. E no entanto parecem perdidas com a liberdade sexual e indecisas em relação ao dilema carreira/maternidade.
O feminismo, ao invés de criar um melhor entendimento entre os sexos conseguiu por a mulher no lugar que homens ocupavam. E só. A Fernanda, Bridget Jones, as Sex and the City são esse retrato da mulher moderna e perdida. No fundo no fundo, apesar de toda a modernidade, o que elas querem mesmo é encontrar THE ONE, o homem utopia, aquele ser mitológico que só existe na cabeça delas e em marte.
Mulheres são muito mais poderosas do que pensam ser. Os gregos jogaram 300.000 navios no mar ao começar a guerra de Tróia por causa da bela Helena. O paciente inglês traiu a Inglaterra inteira por causa de uma mulher. Bao Si derrubou a dinastia Zhou na China com um sorriso. Cleópatra mudou a história de Roma. Joana d’Arc a da França.
E eu pelo menos acredito que o futuro é das mulheres. Women Power.
Não sei porque quando sonho com o futuro vejo um mundo habitado por zumbis, e a Milla Jovovich sempre aparece para me salvar, de bota e vestidinho vermelho. E tem alguma coisa mais sexy do que uma mulher de metralhadora na mão?

Thursday, April 16, 2009

Maldita Guerra


Francisco Doratioto pesquisou durante 15 anos arquivos e bibliotecas no Brasil, na Europa e no Prata para escrever esta Nova História da Guerra do Paraguai. Além disso viveu por três anos no próprio Paraguai visitando locais e recolhendo o que resta da memória viva do que os paraguaios chamam de a Grande Guerra.
Seu trabalho é essencial para reconstruir este capítulo trágico na história do continente e quebrar alguns mitos ainda existentes sobre a guerra.
Existiu um certo revisionismo histórico sobre a guerra e a figura de Solano Lopez tanto no Paraguai como no Brasil.
No Paraguai esse revisionismo foi patrocinado principalmente pela ditadura de Stroessner, para levantar a autoestima e o nacionalismo de um povo carente de heróis.
No Brasil, a esquerda anti-ditadura criou a figura de Solano Lopez como um libertador, oprimido pelo Império brasileiro e criou a idéia de que o Paraguai era uma sociedade muito mais justa do que as outras nações sul-americanas e que sua indústria incipiente representava uma ameaça aos interesses imperialistas dos britânicos, que teriam forçado o Brasil a entrar na guerra.
Doratioto destrói os mitos com documentos e fatos. Quando a guerra começou o Brasil tinha rompido relações diplomáticas com a Inglaterra que na verdade tentou evitar o conflito. O Paraguai era um país miserável, e a maior parte de suas terras era vista por Solano Lopez como sua propriedade particular.
Lopez centralizava todo o poder econômico do país e a nascente indústria paraguaia tinha por objetivo único aumentar seu poderio militar.
Sua ambição e vaidade eram tamanhas que eliminou toda a elite de oficiais e políticos paraguaios que pudessem desafiá-lo, inclusive seus irmãos e cunhados.
Seus filhos foram nomeados oficiais do exército ainda crianças.
Suas decisões militares eram estúpidas e causaram a morte de milhares de seus soldados.
Em suas batalhas finais enviava crianças ao front, com barbas postiças para que parecessem adultos.
Quando foi finalmente capturado e morto pelos brasileiros em Cerro Corá, diz-se que era fácil identificá-lo. Era o único homem gordo em meio a um exército de famélicos.
Um dos mais importantes intelectuais paraguaios contemporâneos, Guido Rodriguez Alcalá não hesita em compará-lo a Hitler pela mobilização para a guerra total a que ambos levaram seus respectivos países.
Doratioto analisa ainda as causas da guerra e a difícil situação dos aliados no campo de batalha de um país desconhecido, com campos alagados e doenças epidêmicas, com um clima que ia do calor escaldante ao frio gelado do sul, do qual não existiam mapas e com um inimigo que preferia morrer a render-se. Além disso começava essa nova guerra de posições e trincheiras, que havia surgido na Guerra Civil americana e que teria seu auge na Grande Guerra européia no século seguinte. O então Marquês de Caxias chegou a importar balões dos EUA para estudar as posições paraguaias.
Caxias e Osório são consagrados como os grandes homens das forças aliadas, enquanto o Almirante Tamandaré, comandante (e hoje patrono) da Marinha é descrito como incompetente.
Outro mito é o da chacina promovida no Paraguai pelas tropas aliadas. Durante o revisionismo chegou-se a citar como 1 milhão o número de paraguaios mortos, o que é impossível visto que a população do país não passava dos 450 mil habitantes na época. Hoje as estimativas variam de 28 a 278 mil os paraguaios mortos. Uma pequena parte no campo de batalha. A grande maioria de doenças e de fome nas retiradas forçadas por Solano López.
Morreram cerca de 50 mil brasileiros. A grande parte também de doenças.
O livro, Guerra Maldita, da Companhia das Letras traz ainda uma bela coleção de fotos, ilustrações e recortes de jornais da época além de reproduções dos quadros de Candido Lopez, pintor argentino que acompanhou as tropas.

Monday, March 02, 2009

A Retirada da Laguna


Li o relato histórico do Visconde de Taunay sobre A Retirada da Laguna assim que voltei da minha visita ao monumento dos heróis de Jardim.
Em 1864, a fronteira entre Brasil e Paraguay no Mato Grosso praticamente não existia. Enquanto o Brasil invocava o princípio de uti possidetis, que considerava território brasileiro todo aquele onde houvessem cidadãos brasileiros, os paraguaios evocavam o tratado de Santo Idelfonso assinado entre as coroas portuguesa e espanhola que estabelecia a divisa pelo rio Branco.
No fim de 64 os paraguaios afundaram a canhoneira Amambay no rio Paraguay e atacaram Corumbá, invadindo o território brasileiro ao mesmo tempo em que iniciavam a guerra contra a Argentina no sul.
Affonso Escragnolle de Taunay, o futuro Visconde e um dos personagens mais interessantes do segundo Império era então um mero secretário do Corpo de Engenheiros do Exército. Seu relato é desprovido de floreios dramáticos, mas os fatos por ele descritos não são por isso menos espantosos.
A coluna brasileira, percorreu em dois anos 2.112km a pé do Rio para São Paulo, Uberaba e chegando finalmente a Coxim no Mato Grosso.
Já grande parte dos seus cerca de 3.000 homens tinha morrido por doenças.
Coxim tinha sido saqueada e abandonada.
Atravessando o Pantanal a coluna chegou a Miranda, também saqueada, incendiada e abandonada.
Em Miranda, a 1º de janeiro de 1867 o Coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando das tropas que marchou até Nioaque, e de Nioaque até a fazenda chamada Jardim às margens do rio Miranda.
Jardim era propriedade de Francisco José Lopes, uma das personagens mais interessantes da história. Lopes era um criador de gado que ali tomava terras em nome do Imperador D. Pedro II, e que nutria grande ódio pelos paraguaios que lhe tinha morto o irmão e seqüestrado filho e a cunhada, sua futura esposa.
Lopes propôs guiar a tropa brasileira por aquele sertão que ele conhecia tão bem e ainda fornecer seus bois para alimentar os soldados.
A tropa chegou a Bela Vista, às margens do Apa que então era território paraguaio e foi até a fazenda Laguna do ditador paraguaio Solano López.
De lá, cercada pelos paraguaios, sem víveres e com pouca munição decidiu bater em retirada.
Os paraguaios usavam sua cavalaria contra os brasileiros a pé, e táticas de guerrilha aprendidas com os índios. Tocavam fogo à macega seguindo a direção do vento para que os brasileiros morressem sufocados com a fumaça e se queimassem no fogo.
As chuvas traziam febres, frio e as dificuldades dos terrenos alagados do Pantanal.
Arrastando canhões, carros de boi e seguidos por uma trupe de mulheres, crianças e índios, os soldados sofriam com a fome, o cansaço, a fumaça, o fogo inimigo e por último com a terrível doença do cólera.
Camisão morreu de cólera no fim da retirada, já às margens do Miranda nas terras da fazenda Jardim, assim como Lopes e seu filho, onde hoje é a cidade de Jardim. A margem oposta hoje abriga a cidade de Guia Lopes da Laguna.
Dos 1.680 soldados que invadiram o Paraguai em abril de 1867, 700 voltaram em 11 de junho a Porto Canuto.
A história é como um Apocalipse Now brasileiro. A morte, a peste e a guerra estiveram ali presentes durante todo aquele caminho. Pode ter sido uma temeridade organizar uma invasão a pé e com tão parcos recursos. Mas não são dignos de serem chamados de heróis homens que foram ao inferno e voltaram?

Em breve neste mesmo batcanal: Guerra Maldita, de Francisco Doratioto.