Tuesday, May 15, 2007

Highlander


Estou na Escócia, volto semana que vem!

Cacilda e o Aborto


Quando criança, uma vez cortei as asas de uma borboleta que capturei no jardim. Minha intenção, enquanto naturalista amador, era a de observar qual seria seu comportamento se não pudesse voar. Meu pai pedagogicamente comentou que aquilo era uma sacanagem com a borboleta. Subitamente percebi, já naquela tenra idade, os horrores que podemos causar em nome da ciência e do progresso.
Conheço algumas mulheres que abortaram e não tenho dúvida de que a vida delas teria sido drasticamente alterada se não tivessem recorrido ao procedimento. No livro Freakonomis, estudando o histórico da criminalidade nos Estados Unidos, Steven Levitt chega à conclusão que a redução da criminalidade na América dos anos 90 se deveu mais à legalização do aborto nos anos 70 do que a qualquer outra política de desarmamento ou de maior policiamento. Segundo Levitt, as mulheres que decidiram abortar, a maioria pobre e com baixa escolaridade, sabem na maioria das vezes se têm ou não condições de criar e educar uma criança. O próprio Steven Levitt no entanto diz que seu estudo não tem nenhuma base moral, e que mesmo considerando-se hipoteticamente que cada feto tem 1% do valor de uma vida humana, usar o aborto como método contra a criminalidade seria terrivelmente ineficiente.
O tema do aborto voltou à pauta durante a visita do Papa Bento XVI à América Latina, e tem estado na agenda do governo Lula, em novelas e na boca do povo.
Eu já defendi aqui o direito das mulheres escolherem o que fazer com o próprio corpo. Acreditava então que esta era a idéia progressista, que esse negócio de alma é crendice, que pela ciência só pode haver vida se existe pelo menos um cérebro formado na gestação, e que um aborto até a formação do cérebro é plenamente aceitável. Acreditava que privar as mulheres do direito ao aborto seria negar-lhes a liberdade que os machos usufruem desde sempre. Estas aliás são idéias divulgadas na maioria dos países desenvolvidos, inclusive aqui na Holanda onde a mulherada aborta como bem entende.
As mulheres lutaram devidamente pela própria liberdade sexual, e com toda razão. Mas liberdade é diferente de direito à irresponsabilidade. Liberdade dá direito à escolhas, mas não dá o direito de esquivar-se às consequências de suas escolhas.
Hoje em dia seria aceitável o fato de garotas de onze anos serem pegas nos banheiros de escolas públicas praticando sexo oral com seus colegas em nome da liberdade sexual conquistada nos anos 60? Falem com qualquer professor da rede pública e verão o quanto isso está acontecendo.
Para fazer escolhas responsáveis os jovens precisam de educação familiar, educação sexual, acesso a métodos contraceptivos. Nisto deveria estar o foco do governo.
Bem sei que centenas de garotas, a maioria pobre, arrisca a vida em clínicas de aborto clandestinas no Brasil (e no resto do planeta). Pagam o preço da própria irresponsabilidade, fruto da educação que não tiveram. Mas hoje, me parece que resolver este problema legalizando o aborto equivale a matar a vaca para curá-la de carrapatos.
O fato é que hoje ciência e religião não podem afirmar com certeza quando a vida começa. E na dúvida, não ultrapasse. Mesmo quem não acredita em Deus, acredita pelo menos que a humanidade deve evoluir para alguma coisa boa, e que cada vida desperdiçada é um passo atrás nessa caminhada.
Mas a história que me fez mudar de idéia em relação ao aborto está descrita a seguir.
É a história de Cacilda de Jesus Ferreira, 36 anos, agricultora em Patrocínio Paulista. No ano passado, Cacilda deu a luz à Marcela. Brás Henrique contou sua história no Estadão:
"Marcela de Jesus Ferreira completou ontem oito dias de vida. Desde o seu nascimento (2,5 quilos e 47 centímetros) está num dos quartos da Santa Casa de Patrocínio Paulista, cidade de cerca de 15 mil habitantes na região de Ribeirão Preto. Ao seu lado, a mãe, Cacilda, de 36 anos, reza pela sobrevida da pequena. Os oito dias de vida de Marcela já contrariam vários prognósticos da Medicina. Ela tem apenas uma pequena parte do encéfalo (cérebro), o que adia a sua provável morte. Desde o diagnóstico do quadro de anencefalia (ausência de cérebro), no quarto mês de gestação, Cacilda jamais cogitou a hipótese de interrupção da gravidez (os especialistas evitam a palavra aborto). 'Sofrer, a gente sofre, mas ela não pertence a mim, mas a Deus, e eu cuido dela aqui', diz a mãe, católica. 'Enquanto isso, cada segundo da vida dela é precioso pra mim.'"
Reinaldo Azevedo chamou Cacilda de de exemplo moral. Diz ele: “É claro que não está dito, nem sugerido, que mulheres que, em situação semelhante, optaram pelo aborto são imorais. Eu sempre sou muito duro no trato das questões políticas, mas tomo extremo cuidado para tratar das dores alheias. Faz parte do zelo que tenho pelo indivíduo. A dor de cada um, meus caros, é sempre indivisível.O que elogiei em Cacilda, o que me comoveu mesmo, é a defesa incondicional que ele faz da vida - mesmo uma vida que insiste em desafiar, vamos ver até quando, tudo o que nos parece razoável e aceitável, como é o caso da de sua filha, Marcela. Quando Cacilda diz: "Sofrer, a gente sofre, mas ela não pertence a mim, mas a Deus, e eu cuido dela aqui. Enquanto isso, cada segundo da vida dela é precioso pra mim", canta um hino à generosidade, à prudência, ao amor incondicional.Exalto o princípio dessa mulher, que nos põe para pensar. Acatou o sofrimento certo quando foi advertida da anencefalia no quarto mês de gravidez. Sofrimento que não lhe era imposto por ninguém. Foi um ato de consciência. Não era escrava da vontade de terceiros. E se negou a sê-lo mesmo da palavra que se quer sempre última: a da ciência - insistirei o quanto for necessário: o discurso científico não é uma ética. Mais do que isso: Cacilda, sem dominar certamente os códigos dos discursos morais, nos diz que atenta contra a humanidade estabelecer quais são as precondições que fazem uma vida ser, afinal de contas, uma vida.Não tarda, e logo aparecerá alguém para, "em nome da razão", determinar quem merece ou não continuar vivo. É a tentação subjacente quando se debatem temas como eutanásia e ortotanásia. Eu os considero tentações malignas. E porque o são, é claro que os inocentes são os primeiros a cair nas armadilhas. Cacilda está protegida delas pela sua fé, que não mata, não deixa morrer nem justifica a morte. Não se deixou escravizar nem mesmo pelo medo de sofrer. Cacilda nos protege do terror. Acredito nisso”

Eu também.

Monday, May 14, 2007

Mãe é mãe


"A única verdadeira forma de altruísmo na Natureza é o amor materno"

Michel Houllebecq

Flags of Our Fathers, Letters from Iwo Jima


Clint Eastwood conseguiu fazer dois filmes espetaculares, sobre a mesma batalha, Iwo Jima. Um visto pelo lado americano, e o outro pelos japoneses, um feito inédito e louvável.
No filme Flags of Our Fathers, Eastwood trata da mistificação do heroísmo da guerra, tal como fez em Os Imperdoáveis, onde toda a aura heróica dos pistoleiros do velho oeste desaparecia em covardia e brutalidade. Flags of Our Fathers é a história de uma foto, a famosa foto de Joe Rosenthal da bandeira americana sendo erguida no Monte Suribachi, publicada em todos os jornais dos Estados Unidos nos dias em que se seguiram à tomada de Iwo Jima. A imagem é a tradução do heroísmo e da coragem, e se transforma em uma máquina de propaganda para arrecadar mais fundos para a guerra. Os soldados protagonistas da foto são levados em triunfo por cidades americanas e recebidos em toda parte como heróis, quando tudo o que eles se lembram é do horror da guerra. Em tempos recentes, o exército americano tentou algo parecido com a recruta Jessica Lynch, ferida, detida e resgatada do Iraque. Parece que ainda não aprenderam
Ian Buruma, que escreveu na New York Review of Books sobre o filme diz que embora Eastwood mostre muito bem a vazio entre a realidade doentia da guerra e as estórias contadas depois, ele não nega a possibilidade de atos heróicos. No filme vemos Doc Bradley, um dos soldados, arriscando sua vida em um fogo cruzado mortal e rastejando para fora de seu buraco para resgatar um companheiro ferido. Diz Buruma que é um ato que não tem nada a ver com patriotismo, “fighting for freedom” ou qualquer coisa do tipo, e tudo a ver com simples decência, que é rara o suficiente para ser chamada de heróica.
No filme falado em japonês e encenado por atores japoneses (Ken Watanabe excelente), a base da narrativa são as cartas escritas por soldados e encontradas enterradas em Iwo Jima muitos anos depois da batalha. Escondidos em cavernas, vivendo em precárias condições e face à iminente batalha suicida, os japoneses dividem o pensamento entre a obsessão pela honra e pelo Imperador e a luta para sobreviver e pela própria individualidade. Em 36 dias de luta morreram 7.000 americanos e 22.000 japoneses em Iwo Jima. Vista pelo lado japonês, a guerra é ainda mais sem sentido. Clint Eastwood fez aqui um filme magistral.

Banlieues


Logo que anunciada a vitória de Nicolas Sarkozy nas eleições francesas, jovens das periferias parisienses saíram às ruas incendiando carros e agredindo policiais. Ë isto o que entendem por democracia?
Da coluna de João Pereira Coutinho hoje na Folha de S. Paulo:
“Roger Kimball no último número da revista "The New Criterion" com erudição e simplicidade, escreve longo ensaio sobre Hayek, o economista austríaco que venceu o Prêmio Nobel da Economia em 1974. E escreve sobre o lado menos conhecido de Hayek: a denúncia que o teórico fez das consequências psicológicas que uma forte dependência económica e social do Estado acaba por provocar no carácter dos indivíduos. Hayek fala de uma "alteração de carácter" e, retomando Tocqueville, denuncia o que lhe parece ser uma "infantilização" dos seres humanos: um Estado que cuida deles do berço à sepultura, respondendo a todas as suas necessidades com patológico paternalismo, é também um Estado que lhes retira qualquer possibilidade de se tornarem adultos e responsáveis.
Nas noites de Paris, Lyon ou Nantes, não foi apenas a extrema-esquerda que saíu à rua. Foram crianças sem maneiras, que o Estado infantilizou durante longos anos de doentia protecção. Este atraso não se resolve com polícia. Resolve-se da única forma possível: terminando com a mesada e obrigado as crianças a crescer”.

Sunday, May 13, 2007

Munch

"Sickness, insanity and death were the angels that surrounded my cradle and they have followed me throughout my life." - Edvard Munch (12 Dezembro, 1863 – 23 Janeiro , 1944)













Saturday, May 12, 2007

La Vie en Rose


Edith Piaf nasceu em 1915 no início da primeira guerra mundial em um bairro pobre de Paris. O pai foi para o front e a mãe miserável e alcoólatra cantava nas ruas para sobreviver. Deixada aos cuidados da avó, uma cafetã na Normandia, foi criada por prostitutas. Quando criança ficou cega por um tempo devido à um problema na retina, curado como uma benção de Santa Teresa. Após o fim da guerra, entra para o circo com o pai que é contorcionista. Deixam o circo e voltam a Paris onde a pequena Edith começa a cantar nas ruas para ganhar a vida. Aos 18 anos tem uma filha com seu amante. Ela morreria aos dois de meningite. Edith é descoberta nas ruas por Leplée um dono de cabaré que a convida a se apresentar. Na cabaré ela faz sucesso mas Leplée é assassinado e Edith volta para as ruas. Somente em 1937 é que Edith Piaf inicia a carreira de vedette para se tornar a maior popstar que a chanson française já produziu. Durante a guerra ela permanece em Paris, protege artistas judeus e faz contatos no mundo do show business lançando uma carreira internacional.
Depois de perder seu grande amor em um acidente de avião, Edith se vicia em morfina, se desintoxica, sofre um acidente de carro e recai no vício.
Ela morreria em 1963. Essa foi a “vie en rose” de Edith Piaf, agora nas telas de cinema no filme de Olivier Dahan. Embora o filme pule algumas passagens da atribulada vida de Edith Piaf, a atuação de Marion Cotillard é perfeita, e o filme é um presente para quem gosta de Paris e de música.
Edith Piafa deveu sua vida à música, cantava para poder viver. E retribuiu à altura. E depois de uma vida como essa, não restava nada a Edith Piaf senão cantar je ne regrette rien.

O Canto da Missão


Pensou-se que o fim da Guerra Fria acabaria com o filão literário mais explorado por John Le Carré, o romance de espionagem. Enganaram-se, o mundo está cheio de palcos onde homens ambiciosos e hipócritas jogam perigosos jogos de poder. A África foi o que John Le Carré encontrou agora para contar estas histórias. Depois de O Jardineiro Fiel, onde o vilão eram multinacionais farmacêuticas no Quênia, Le Carré volta os olhos para o Kivu, uma região tão rica quanto atormentada no Congo Oriental.
O Canto da Missão é a história de Bruno Salvador, um mestiço filho de um missionário irlandês e mãe congolesa, intérprete de uma variedade de línguas e dialetos da África Central. Embora a história seja sobre o Congo, grande parte dela se desenrola em Londres e em uma ilha no mar do Norte para onde Salva é levado a serviço de Serviço de Inteligência britânico para planejar um golpe de estado no Kivu. Entre senhores da guerra africanos e mercenários ingleses, a ilusão de que seu trabalho é para o bem do país vai desmoronando ao mesmo tempo em que sua consciência africana desperta.
É impossível ler o livro e não lembrar-se das cenas de Mark Thatcher, filho da ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher, sendo preso na África do Sul acusado de conspirar em um golpe de estado na Guiné Equatorial. Nas sombras do poder, milhares de outros golpes e crimes devem ter sido executados em cima da miséria dos africanos. John Le Carré escancara a hipocrisia ocidental e mostra como golpes deste tipo são planejados, como se estivéssemos lá naquela sala a imaginar como matar, explorar e enriquecer.

A mídia de joelhos


Você pode não gostar de Diogo Mainardi. Pelo menos metade do Brasil o odeia. Eu estou com a outra metade. Penso que ele é no mínimo inteligente, na maior parte das vezes brilhante.
Mas se você preza a democracia deverá pelo menos conceder-lhe o direito de ter uma opinião.
Diogo Mainardi foi processado pelo agora Ministro das Comunicações Franklin Martins, o que vai criar a nova televisão estatal brasileira. Jornalistas petistas já sabiam da sentença condenando Diogo antes mesmo de sua publicação. O próprio juiz confessou ter “idealizado” a maneira de conduzir o processo, ou seja, não respeitou os procedimentos normais. Franklin Martins era membro do antigo movimento de guerrilha MR 8, o que sequestrou o embaixador americano nos tempos da ditadura. Hoje o MR 8 é ligado ao jornal A Hora do Povo, que é sustentado com anúncios do governo federal.
A Hora do Povo publicou em sua primeira página uma ameaça de morte velada a Diogo Mainardi por discordar do que o colunista diz referente ao processo contra Franklin. Deve estar querendo um "justiçamento" como no tempo da ditadura...
A próxima vítima da máquina do governo esmagar a imprensa foi Arnaldo Jabor, ameaçado de processo por Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara.
Ao comentar os astronômicos gastos em gasolina declarados pelos nossos deputados, Jabor disse em seu programa na rádio CBN: “Todos sabemos que os nossos queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina. A Câmara, ou, melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar o gasto da gasosa. Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, eu esqueci. Eles têm imunidade, têm foro privilegiado. É isso, aí, amigos otários como eu."
Octávio Frias, o falecido editor da Folha já disse: o governo quer a mídia de joelhos.
Depois de Mainardi e Jabor quem será o próximo? Seremos obrigados todos assitir no futuro só aos programas da TV estatal de Franklin Martins?
Lembrem-se desta história do teólogo protestante alemão Martin Niemöller (1892-1984), falando sobre o nazismo:“Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar”.

Sarkozy e Maio de 68


Felizmente para a França, Nicolas Sarkozy foi eleito seu novo presidente.
Segolène Royal soube fazer seu caminho entre os dinossauros de seu partido, soube unir uma esquerda francesa perdida depois do fracasso de Lionel Jospin em 2002 e dilacerada depois do referendo sobre a Constituição Européia, soube se impor, soube cativar o público com seu charme e seus ares de Joana D’Arc salvadora da pátria. Ameaçada pelas pesquisas, partiu para o terrorismo eleitoral e a agressividade como se viu no debate anterior ao pleito. Segolène perdeu, mas a esquerda francesa perdeu mais. Perdeu porque como grande parte da esquerda no mundo não soube evoluir com o tempo.
Por mais importantes que tenham sido as conquistas dos movimentos de maio de 68 contra o autoritarismo do Estado, Sarkozy afirma e com razão que é necessário virar a página. O muro de Berlim caiu, a globalização, a imigração e a União Européia apresentam novos desafios à França que a esquerda é incapaz de responder. Ou a economia francesa não estaria tão atrás em desempenho quando comparada à liberal economia inglesa.
É preciso deixar de acreditar que o Estado deve ser uma mãe cuja função é sustentar e relevar os erros de seus filhos. Se em Maio de 68 era necessário desmoralizar a autoridade de famílias, do Estado, de professores, hoje é necessário devolver autoridade a quem é de direito.
Eu votaria na direita porque partilho com Sarkozy a convicção de que as responsabilidades pelo bem estar da república devem ser repassadas aos seus cidadãos. Trabalhar mais para ganhar mais, respeitar a lei para viver em paz.
O Brasil de Lula recompensa quem não trabalha e culpa as vítimas em lugar de castigar os criminosos. Se Alckmin tivesse sido um Sarkozy estaríamos melhor.

Tuesday, May 01, 2007

Indigènes


Este filme do argelino Rachid Bouchared foi assistido em première por Jacques Chirac e suas esposa Bernardette Chirac no ano passado. Quando terminou a sessão, ouviram a primeira-dama sussurrar no ouvido do marido que ela não sabia que tinha sido assim.
Na verdade pouca gente sabe que mais da metade do exército de 550 mil homens comandado pelo General de Gaulle na reconquista da França na Segunda Guerra Mundial era formado por soldados das colônias francesas na África, árabes, berberes e negros.
O filme conta a história de quatro argelinos engajados no exército francês desde o desembarque na Itália até a retomada da Alsácia. Lutando por uma pátria que eles nunca tinham visto antes, os “bougnoules”ou indigènes lutam não só contra os nazistas mas sobretudo pelo reconhecimento dos franceses que nunca veio.
De Gaulle sonhava com uma Union Française, onde as colônias seriam elevadas ao mesmo status social que a Metrópole (Ainda hoje a Guiana é administrada como se fosse um département français, e os índios aprendem na escola sobre nossos ancestrais os gauleses...). Visto o tratamento que recebiam dos franceses, o império colonial acabou desmoronando e a Argélia se desligou da França da forma mais dolorosa, em uma horrível guerra cujas cicatrizes ainda estão vivas nas memórias coletivas dos dois lados do Mediterrâneo.
É impossível não lembrar do Soldado Ryan no final de Indigènes, quando um dos veteranos visita os túmulos dos companheiros de armas em um cemitério na Alsácia. À diferença do americano que volta para casa com a família, o cabo Abdelkader volta para seu apartamento solitário em uma imunda cité da periferia, onde os franceses acabaram por confinar seus ex-colonos.
As pensões militares dos africanos que lutaram pela França na segunda guerra foram cortadas depois da indepêndencia de seus países. Somente em 2002, quando a maioria dos veteranos estava morta ou idosa demais, a Corte Suprema decidiu pelo pagamento de todas as pensões atrasadas, pagamento este nunca executado até a aparição deste filme. Os quatro protagonistas dividiram o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes do ano passado, mas esta foi a verdadeira vitória do filme de Bouchareb. Revisitar o passado é a única saída dos franceses para enfrentar a ferida do racismo colonial que nunca sarou.

Turquia


A União Européia sempre expressou receio em relação às verdadeiras intenções da Turquia em relação ao islamismo, receio plenamente justificado pelas desastradas declarações do Primeiro Ministro turco Tayyip Erdogan.
Quem viu estas imagens na TV de milhares de pessoas nas ruas de Ankara e Istambul para defender o secularismo da república percebe que o povo turco já fez a sua escolha, a mesma escolha feita por Kemal Ataturk na fundação do país.
A Turquia quer ser um país livre e democrático, e não uma teocracia islâmica.
A Europa em vez de fechar-lhes as portas deveria estender a mão aos turcos.

Justiça vendida


Esta graça que copiei do Kibeloco mostra bem a moral do Poder Judiciário brasileiro hoje. E mostra mais uma coisa. Ao contrário do que possam dizer por aí, o mal que o jogo causa é muito maior do que qualquer benefício que possam trazer em empregos ou impostos. Onde há jogo há sempre corrupção, drogas, prostituição. Jogo só é bom para quem é o dono, seja bingo, cassino ou banca do bicho.

Lang leve de Koningin


Ontem, 30 de Abril foi o Dia da Rainha, a grande festa nacional holandesa. É o dia em que os holandeses saem as ruas todos vestidos de laranja em homenagem à Casa Real de Oranje. A Rainha, magnânimamente permite que neste dia qualquer um possa vender qualquer coisa sem pagar impostos. Cada cidade tem o seu straatmarket, o mercado de rua onde os holandeses vão vender qualquer tranqueira que tenham em casa, e a criançada é a mais animada da festa. Em Gouda, o mercado acontece exatamente na minha rua, e desde as 5 da manhã o pessoal já está lá arrumando as barraquinhas e pegando lugar...Este ano, com excepcional bom tempo para a época, os holandeses brancos como giz depois de seis meses de hibernação saem no feriado desesperados para aproveitar ao máximo o calor e os primeiros raios de sol do verão que se anuncia. Saladas, vinho rosé e branco, cerveja, coca-cola, artigos de churrasco e qualquer coisa que seja refrescante ou que possa ser digerida ao ar livre são praticamente saqueados das prateleiras dos supermercados.
A Rainha passeia com a família em alguma cidade, a princesa Maxima, que apesar de ser argentina é simpática, acaba de dar a terceira herdeira para o trono, os holandeses saem no mercado ou passeando de barco ou bicicleta no sol e os brasileiros ficam aqui achando graça em tudo.

Sunday, April 29, 2007

5 x Kate Moss











Fotos de Kate Moss sendo leiloadas na Christie's em Londres. Já falei aqui contra a magreza dela e das modelos em geral mas não dá para negar a beleza plástica destas fotos. Elegância nua.

Freakonomics


Este livro de Steven Levitt, à primeira vista pode parecer uma curiosidade, algo como cultura inútil. O que professores do Michigan têm a ver com lutadores de sumô no Japão? Ou o que a Klu Klux Klan tem a ver com o mercado imobiliário? Estaria a criminalidade relacionada ao aborto? Quem é discriminado no Weakest Link?
A verdade é que este livro é muito mais do que cultura inútil.
Todos os dias nós, pais, empresas, governantes, temos problemas a resolver e decisões a tomar. Nossas decisões baseiam-se em dados que recolhemos de pesquisas, estatísticas, publicações ou do que percebemos como sabedoria convencional.
Acontece que pais não sabem por exemplo que estatisticamente é mais perigoso deixar o filho bricar na casa de um amigo que tem piscina do que na casa de um amigo cujo pai tem uma arma. Políticos não sabem que a quantidade de dinheiro gasta na campanha não tem relação com o resultado da eleição. Ou que a queda da criminalidade hoje pode estar mais relacionada com a liberação do aborto há 15 anos atrás do que com novas políticas de segurança.
Este livro, como o próprio autor afirma está londe de pretender ser um guia moral para qualquer coisa. De fato, um pai preocupado pode mandar o filho brincar na casa do amigo com piscina porque o ambiente ali é melhor, mais alegre talvez do que na casa onde há uma arma. Não é porque houve uma relação entre aborto e queda da criminalidade que vamos sair por aí esterilizando pobres. Freakonomics é sobre como ler números, como organizar dados e como aprender a pensar logicamente, distinguindo correlações de relações de causa.

Para quem se interessar tenho uma cópia em .pdf que posso enviar por email!

Bosch



Ainda não descobri porque a Holanda durante a sua história acabou revelando tantos e tão talentosos pintores. É claro que um ambiente econômico favorável sempre ajuda o mecenato. Em parte isso explica a chamada Época de Ouro no Século XVII quando a Holanda era uma das maiores potências econômicas do mundo. Em um século a Holanda produziu Rembrant, Vermeer, Claeszoon, Nicolas Maes e vários outros. Mesmo assim, depois dos gloriosos anos dourados holandeses ainda viriam Alma-Tadema, Breitner, Van Gogh, de Kooning. É impressionante quanta arte este país já produziu.
Mas antes disso, bem antes, no final do século XV surgiu um pintor na Holanda cujos quadros me fascinam desde que aprendi o que era pintura. Seu nome era Hieronymus Bosch, e resolvi escrever sobre ele por ter visitado s’Hertogenbosch, a simpática cidade na província de Brabant onde o pintor nasceu a cerca de 1450. Quando tinha uns 13 anos, Bosch viu sua cidade ser horrivelmente destruída por um incêndio. Hoje, com sua catedral, o mercado, suas casas e canais preservados, a cidade que os holandeses chamam de Den Bosch é um ótimo lugar para se fazer compras e para se comer umas espécie de carolina gigante cheia de chantilly, especialidade local.
Em algumas lojas se encontram souvenires relacionados ao pintor. Seus quadros cheios de minuciosos detalhes são um deleite para a imaginação. Seus estranhos mundos são povoados de criaturas fantásticas, seres torturados, tentações eróticas e pesadelos, máquinas e demônios completamente delirantes.
Bosch pertencia à Irmandade de Nossa Senhora, uma organização ultra-religiosa holandesa e usava seu trabalho para retratar as tentações, a imoralidade e a fraqueza do homem face ao mal.
Bosch já era surrealista muito antes de Salvador Dali.

Yeltsin


O governo de Boris Yeltsin, o primeiro presidente russo eleito por voto popular depois do desmoronamento da União Soviética foi em muitos aspectos um desastre. Sua terapia de choque para fazer a Rússia transformar-se em uma economia de mercado causou um colapso social e econômico que afetou grande parte da população. Enquanto isso, a corrupção proliferava e imensas falcatruas foram realizadas com a privatização do patrimônio soviético. No final de seu governo, o índice de aprovação de Bóris Yeltsin entre os russos era de 2%.
Mesmo assim, bastou um momento de seu mandato, um luminoso instante de coragem para que este homem fosse lembrado agora na hora de sua morte com respeito. Em 1991, quando um golpe de militares da linha dura ameaçava derrubar Mikhail Gorbachev e suas reformas, Boris Yeltsin subiu em um tanque em frente ao parlamento russo para convencer cidadãos e militares e não apoiarem o golpe. Sua iniciativa salvou Gorbachev e quiçá o futuro da Rússia.
Apesar de todas as suas falhas e de todos os seus caricaturados excessos, é esta a imagem que o mundo gostará de recordar quando pensar em Boris Yeltsin.
Se cada um pensasse em ter pelo menos um momento na vida para ser lembrado com orgulho, quem sabe não seria o mundo diferente?

Tuesday, April 24, 2007

Borat


Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan!
Assisti essa semana, acabou de sair no DVD por aqui.
Borat Sagdiyev é hilário, e Sacha Baron Cohen é com certeza o maior cara de pau que já passou por uma tela de cinema.
Borat, seu personagem, é um repórter do Cazaquistão filmando um documentário nos Estados Unidos. Só que Borat reúne todos os piores estereótipos que os americanos têm do terceiro mundo. Ele é bárbaro, grosso, ingênuo, anti-semita, machista e politicamente incorretíssimo.
E a genialidade de Sacha é a de fazer um filme onde a piada não é o terceiro mundo, mas sim as reações dos americanos face ao estereótipo.
Ele faz piada com o irmão retardado e a irmã prostituta num ridículo “curso americano de humor”, e a gente rola de rir com a cara do professor.
Ele vai a uma reunião de feministas enquanto assiste Baywatch na TV, e por isso decide atravessar o país em busca de Pamela Anderson.
Em um rodeio, é aplaudido quando diz que tomara que os americanos bebam o sangue de cada mulher, velho e criança do Iraque e em 5 minutos consegue voltar o público todo contra ele. De carona com estudantes escuta que eles também queriam ter escravas na América...E na igreja pentecostal acaba aceitando Jesus e exorcizando seus demônios junto com os fiéis birutas, e segue para a Califórnia com a intenção de ensacar a Pamela e levá-la para casa.
É de rolar de rir.

Plantu


Plantu, cartunista do Le Monde e l’Express em entrevista: “Jacques Chirac é como aquele vovô que não cuida da casa direito, deixa as rachaduras crescendo na parede e a pintura descascando, assalta a geladeira de noite, mas mesmo assim quando ele for embora iremos sentir sua falta.”

Monday, April 23, 2007

Coca zero


Eu achava que seria mais um programa do socialismo do terceiro milênio de Lula, Chávez e Chapolin. Mas não, de pois da coca-cola e da coca light este é o meu mais novo vício: Coca Zero.

A bebida negra do capitalismo.

Saturday, April 21, 2007

Desiludidos, Psicopatas, Criminosos


Um amigo que fazia aula de biologia celular comigo no primeiro ano de faculdade se matou com um tiro de espingarda na boca por causa de uma mulher. Também era um garoto quieto, mas boa praça. A gente gostava de pingar água na mesa do pessoal que dormia na aula para que eles pensassem que estavam babando enquanto dormiam.
Amantes suicidas são tragicamente dramáticos, mas humanos, como atestam Shakeaspeare e Nelson Rodrigues. Infelizmente não perceberam que há mulheres, ou homens, suficientes no mundo para fazer esquecer aquela desilusão.
O coreano Cho Seung Hui que provocou o massacre na Virgínia Tech esta semana não tem nada disso. Basta ver essa foto ou ler um trecho do seu manifesto para ver que ele era um grandessíssimo biruta. A perda da namorada era talvez o menor dos seus problemas. Morando no país mais rico do mundo para onde milhares de imigrantes querem ir, estudando em uma das melhores escolas, o coreano ainda se achava um desgraçado e quis morrer se achando um Jesus Cristo. Cho era um piscopata que não gostava dos meninos ricos de sua escola. Infelizmente, um crime como esse é muito difícil de ser previsto ou evitado.
O mais chocante é ver as reações das pessoas nos chats e blogs de jornais. A maioria como sempre culpa os próprios americanos pelo massacre. Alguns até gostam que eles experimentem em casa um pouco do que estão fazendo aos outros no Iraque.
Sim, eles podem ir na esquina e comprar uma arma. Michael Moore, por mais manipulativo que possa ser, mostrou em Bowling for Columbine exatamente como é a psique americana em relação a armas de fogo.
Mesmo assim no Brasil o índice de homicídios por arma de fogo é o dobro do deles. E a taxa de criminalidade deles é bem menor do que a nossa.
No último referendo sobre as armas no Brasil eu teria votado (não votei por estar na Holanda) contra a proibição da venda de armas. Era, e ainda é, minha opinião que um estado que é incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos não lhes pode cassar o direito de se defenderem sozinhos.
Crime comum não tem a ver com o número de armas na sociedade, tem a ver com eficiência policial e com impunidade.
Crime de piscopatas não tem a ver com nada. Ninguém pode prever que um maluco sairá por aí atirando. E se não for com revólver será com uma bomba, com gás ou com o que estiver à mão. Há uns anos atrás um aluno da Escola Politécnica dde São Paulo entrou atirando de metralhadora dentro de um cinema, hoje ninguém se lembra disso. Outras dezenas morrem por bala todos os dias nas ruas do Rio e de São Paulo. Enquanto na super-armada sociedade americana um massacre como esse choca e pára o país, no Brasil a violência vira parte da paisagem.

Sego x Sarko


Estarei olhando de perto as eleições francesas nesse domingo. Elas têm muito a dizer sobre o futuro não só da França como da Europa.
A França é hoje um país cujo governo mastodôntico se tornou o pai, a mãe e a babá de seus cidadãos. Um país onde a iniciativa individual foi sucessivamente sendo substituída pela mamata do estado do bem estar social, e cuja economia hoje patina sem sair do lugar. A revolta dos magrebinos nas periferias parisienses e dos estudantes contra a reforma trabalhista mostra o quanto o país reluta em mudar.
A Economist há algumas semanas tinha uma capa onde dizia que a França precisava encontrar sua Margareth Thatcher. A meu ver, Nicolas Sarkozy é o único capaz de cumprir a tarefa.

A Fórmula de Deus II


Ainda falando sobre os últimos textos que li, aqui vai uma idéia bizarra tirada de A Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos.
Primeiro é preciso saber que a física que conhecemos no nosso dia a dia é newtoniana, ou seja, usando variáveis como tempo, espaço e velocidade podemos determinar o movimento de todas as coisas no nosso mundinho. Einstein descobriu a relatividade e viu que o tempo a grandes velocidades na escala do Universo não é exatamente o mesmo que o tempo que vivenciamos aqui na Terra. Depois vieram as descobertas na física quântica, Heisenberg veio com seu Princípio da Incerteza e descobriram aqui ali, nas distâncias microscópicas do mundo das partículas a física também tinha regras diferentes. Isso tudo pode ser lido em “O Universo numa Casca de Noz”de Stephen Hawking. Desde então a Física tem buscado uma teoria do tudo que possa conciliar a física da relatividade com a física quântica, e que valha tanto para o universo como para o mundo sub atômico. Essa teoria do tudo seria capaz de determinar tanto o movimento de astros e estrelas como o de partículas desde o Big Bang até agora.
Teoricamente uma equação como essa nos faria capaz de descobrir o que aconteceu desde o início dos tempos no Big Bang até agora.Sabendo que a ação de cada partícula gera uma reação que se propaga no Universo, e sabendo como prever o movimento de cada partícula, um supercérebro seria capaz de prever com exatidão o que vai acontecer no nosso futuro. Até o que pensamos serem decisões nossas de livre-arbítrio seriam na verdade fruto de uma longa sequência de ações e reações.
Assim, nosso destino estaria verdadeiramente escrito nas estrelas...
Os chineses usam o I-Ching, o seu oráculo milenar para prever o futuro. No I-Ching moedas com ideogramas são atiradas para o ar e depois interpretam-se os resultados. Eles acreditam, e a Física lhes dá razão, que a posição em que as moedas caíram foram influenciadas pelo estado do universo inteiro naquele momento.
Existem no entanto duas coisas que nos tornam incapazes de conseguir ler nosso futuro. Uma é o Caos, outra o Infinito.
O Caos tem a ver com aquela velha história de que uma borboleta batendo as asas na África provoca um ciclone na Flórida. Uma causa diminuta porvoca uma sequência de eventos com gigantescas consequências. O Infinito pode ser explicado pelo paradoxo de Zenon. Se uma pessoa quiser andar até o final da sala por exemplo percorrendo a cada vez metade da distância que o separa do fim da sala ele nunca chegaria lá. Porque andará primeiro a metade da sala, depois a metade da metade e depois a metade da metade da metade e assim sucessivamente. Então, se cada minúscula mudança tem consequências enormes e a gente nunca sabe em que fração de tempo ou do espaço essa minúscula mudança vai acontecer, pois os dois são infinitos, lá se foi nossa chance de prever o futuro... A conclusão é que Alguém sabe de Tudo, mas não quer deixar que a gente saiba.

Monday, April 16, 2007

Uma de papagaio...


En Cuba, un niño regresa de la escuela a su casa, cansado y hambriento y el pregunta a su mamá:

- Mamá, ¿que hay de comer?
- Nada, mi hijo.

El niño mira hacia el loro que tienen y pregunta:

-Mamá, ¿por qué no loro con arroz?
-"No hay arroz.
-¿Y loro al horno?
-No hay gas.
-¿Y loro en la parrilla eléctrica?
-No hay electricidad.
-¿Y loro frito?
-No hay aceite.

El loro contentísimo gritaba:

-¡¡¡VIVA FIDEL!!! ¡¡¡VIVA FIDEL!!!

Sunday, April 15, 2007

A Fórmula de Deus


Li algumas coisas nesses últimos dias que me fizeram pensar sobre um tema certamente importante e ao mesmo tempo extremamente difícil para todos nós, a existência de Deus. Li por exemplo um debate na Newsweek entre Sam Harris, ateísta autor de “The End of Faith”, e Rick Warren, pastor americano autor de "The Purpose-Driven Life”. Li na New York Review of Books a crítica de H. Arren Orr ao livro “The God Desilusion” de Richard Dawkins, a nova bíblia dos ateus. Li o artigo de Olavo de Carvalho intitulado Ateus e Ateus publicado no Jornal do Brasil a 15 de março passado. E li o romance “A Fórmula de Deus” de José Rodrigues dos Santos, best-seller português.
Primeira conclusão: sem dúvida houve um renascimento do fundamentalismo cristão, especialmente no chamado Bible Belt dos Estados Unidos. Na base deste renascimento estão os eleitores de George Bush, gente que faz compras no Wal-Mart e que acredita firmemente que o diabo existe com chifre e tridente e que não têm a menor idéia do que se passa fora das fronteiras americanas. Existe também uma reação contrária, como seria de se esperar, representada por um forte movimento ateísta que prega que a religião, todo tipo de religião, é maior peça já pregada na humanidade. Quem quiser ter uma idéia de como pensa essa gente basta pesquisar por exemplo a igreja do Flying Spaghetti Monster na internet, ou dar uma folheada no livro de Richard Dawkins. O debate na Newsweek é muito ilustrativo do tipo de argumento ridículo usado entre estas duas frentes de combate.
- Se Deus existe, porque criancinhas morrem de câncer?
- O mundo foi criado em seis dias porque está escrito na Bíblia que foi assim.
Obviamente um debate assim não vai longe. Olavo de Carvalho foi quem me convenceu que o ateísmo atual é de uma ignorância tão obscurantista quanto o pior dos fundamentalismos. Diz o filósofo: “Como tudo o que sabemos é circunscrito e limitado, vivemos dentro de uma redoma de conhecimento incerto cercada de mistério por todos os lados... a nossa situação é de desconforto permanente. Ela exige de nós uma adaptação ativa, dificultosa e problemática. Daí as opções da alma: a abertura ao infinito, ao inesperado, ao heterogêneo, ou o fechamento auto-hipnótico na clausura do conhecido... A primeira dá origem às experiências espirituais das quais nasceram os mitos, a religião e a filosofia. A segunda leva à "proibição de perguntar", a repulsa à transcendência, a proclamação da onipotência dos métodos socialmente padronizados de conhecer e explicar... É possível ser ateu e estar aberto ao espírito. Mas o ateu militante, doutrinário, intransigente, opta pela recusa peremptória do mistério, deleitando-se no ódio ao espírito, na ânsia de fechar a porta do desconhecido para melhor mandar no mundo conhecido.”
Daí vem minha segunda conclusão, a de que o ateísmo militante não passa de uma forma de religião fundamentalista. Já o fundamentalismo cristão é essencialmente protestante. Se os católicos aceitam a intermediação da Igreja na interpretação do Livro, os protestantes o levam ao pé da letra. Para mim é difícil acreditar no Deus bíblico, antropomórfico, ciumento e contraditório como descrito no Livro. Santo Agostinho já dizia que a Bíblia muitas vezes fala por metáforas. A Bíblia interpretada como metáfora se torna então uma espécie de código civil que permite à humanidade suportar-se mutuamente e assim sobreviver.
Deixando a Bíblia de lado, resta a questão da existência de Deus. José Rodrigues dos Santos aborda a questão de maneira interessante misturando ficção e teoria científica com um toque de Dan Brown como já tinha feito em seu romance “Codex 632”. Em Codex, a teoria era a de que Cristóvão Colombo seria um agente secreto português. Em “A Fórmula de Deus”, onde aliás ele usa o mesmo personagem de Codex, sua teoria é a de que o Universo teria sido criado de forma inteligente, com a finalidade de produzir vida, e que essa vida se tornasse inteligente e que essa inteligência fosse preservada até o final dos tempos. Em meio às aventuras de seu personagem pelo Irã, Tibet e Portugal, as modernas teorias da física são explicadas de forma surpreendentemente simples, e descobrimos que as verdades descobertas pela ciência encontram paralelos em diversos textos sagrados da humanidade.
Embora com algumas diferenças, meu pensamento é o mesmo de José Rodrigues dos Santos. Não acredito que haja um velhinho de barbas brancas a olhar tudo o que fazemos, mas de certo modo acredito que há inteligência atrás do design do Universo. Acredito que há um grande plano atrás de tudo isso e que nossa evolução um dia nos trará explicações.
O Universo foi criado em uma explosão de luz há 15 bilhões de anos atrás. Basta olhar a complexidade do que nos cerca para imaginar, como Shakeaspeare que há algo mais entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia. Negar isso é uma estupenda forma de arrogância. Um padre jesuíta contou à minha mãe uma vez esta história, da formiga que caminha sobre uma toalha de renda. Ela caminha tropeçando nos nós e caido nos buracos, e por isso pragueja contra a imperfeição do mundo em que vive. Mas por causa do seu ínfimo tamanho não consegue ver o belo desenho formado pela toalha inteira.



Filmes da semana


Shooter – Mark Wahlberg é um sniper traumatizado usado um complicado plano para encobrir uma ação clandestina da CIA em território africano. Com uma boa história, esse filme poderia ser melhor. O problema é que preferiram transformar Wahlberg em uma espécie de Rambo que luta contra trezentos mas só ele mata todos no final...Sou fã de Mark Wahlberg mas ele estava bem melhor em The Departed ou em Boogie Nights.

Freedom Writers – este parecia ser mais um daqueles filmes onde uma professora idealista, vivida muito bem por Hilary Swank, consegue dar um pouco de esperança a uma classe de delinquentes. A verdade é que conseguiram fazer um filme verdadeiramente emocionante, principalmente por ser uma história real. É escrevendo suas próprias experiências que os alunos tomam consciência do que são e do que podem ser.

Notes on a Scandal – Se alguém quer ver duas imensas atrizes contracenando este é o filme. Judi Dench e Cate Blanchett dão um show nesta história sobre um escândalo sexual em uma escola média inglesa.

Rocky Balboa – Infelizmente Sylvester Stallone nunca deveria ter tentado passar do primeiro filme, aliás um excelente filme. Todos os outros foram desastrosos e este último apesar de um pouco acima da média também não é lá grande coisa. Mas uma frase do velho Rocky valeu pelo filme: na vida o que vale não são os socos que você dá, mas o quanto de porrada você aguenta levar...

Voltei, mas voltarei!


Sim, fui ao Brasil e voltei são e salvo, depois de 14 pousos e decolagens. Perdi mesmo só aquelas horas básicas de espera que todo brasileiro está acostumado, mas sem passar pelo perrengue que muitos outros passaram dormindo em aeroportos nesses tempos de suplício para viajantes. Mas em solidariedade já pus meu nome no abaixo-assinado virtual do Gabeira na internet pela instalação da CPI do apagão aéreo.
E a vantagem de se viajar com um patrão rico é que ele te leva de business class. Pela primeira vez tive a felicidade de ser tratado como um ser humano por uma companhia aérea, e pelo menos dessa vez, durante as 11 horas de viagem de Amsterdam a São Paulo os meus joelhos ficaram distantes do meu queixo, consegui dormir e comer decentemente.
No Brasil passei por São Paulo e pelo interior do Mato Grosso do Sul. Voltei a sentir o cheiro da terra e do capim molhados, do esterco da boiada, voltei a ver as estrelas do meu sertão querido, o pôr do sol vermelho, a poeira da estrada, o galo e a passarinhada cantando de manhã...Churrasco, mandioca, queijo fresco, tereré gelado. Deu uma “sardade” danada como diria Inezita Barroso. E decidi, dura decisão, que era hora de voltar. Meu auto-exílio europeu vai terminar no ano que vem, depois de nove anos.
Há outras razões também. Em São Paulo encontrei um belga que já mora há algum tempo no Brasil. Perguntei-lhe se não tinha vontade de voltar para a Bélgica. Ele me disse que toda vez que volta à sua vila na Bélgica ele encontra o mesmo sujeito, com a mesma bicicleta, vivendo na mesma casa, comprando o mesmo pão na mesma padaria, exatamente como há dez anos atrás. Já o Brasil é sempre uma caixinha de surpresas. Nem sempre agradáveis, mas a vida vai como uma montanha russa. Aí eu percebi que não queria viver para sempre na Holanda indo do trabalho para casa e de casa para o trabalho, passeando de bicicleta no parque no fim de semana até a minha aposentadoria. E se na Holanda está tudo pronto, feito, construído, o Brasil está explodindo de oportunidades como acabei de ver. No ano que vem o risco Brasil já estará em um nível considerado aceitável pelos maiores investidores do planeta, os fundos de pensão americanos. Aí é a grana grossa que vai chegar. Álcool e açúcar, pecuária, cereais, madeira, minério. E eu vou voltar surfando nessa onda. Nada de bem-estar social europeu, eu quero é surpresa. Já dizia Robertão, se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi.

Tuesday, April 03, 2007

Where the hell is Matt?


Meu grande amigo Jiló, companheiro de muitas mochilagens pela Europa me mandou em nostalgia o link abaixo. Trata-se do vídeo de Matt, uma figura que viaja pelo mundo com a sua dança maluca. Ele criou o site wherethehellismatt.com para que seus amigos e parentes o sigam pelos quatro cantos do planeta.
Matt virou meu ídolo instantâneo. Meu sonho também é ser um vagabundo profissional, viajando pelo mundo, não dançando mas quem sabe escrevendo... Até agora não achei quem me pagasse para isso mas um dia chegarei lá.
Enquanto isso eu viajo com o meu patrão holandês mesmo que paga meu salário. Estarei nos próximos dias com o bwana visitando o Brasil a negócios. Volto só semana que vem.
Se perguntarem Where the hell is Fernando digam que estarei no verdadeiro inferno, os aeroportos brasileiros na semana de greve.

http://www.youtube.com/watch?v=bNF_P281Uu4

http://www.wherethehellismatt.com

300


Em 480 AC, um batalhão de 300 espartanos liderados pelo Rei Leônidas encurralaram o exército de um milhão de persas do imperador Xerxes no desfiladeiro de Termópilas. Por três dias os gregos combateram furiosamente os persas até que um traidor indicasse outro caminho a Xerxes para que seus soldados pegassem os gregos desprevenidos pela retaguarda.Esse feito dos Espartanos (que se diziam descendentes de Hércules) naquele tempo em que macho era macho e não tomava mel, chupava a abelha foi um dos mais famosos last stands da história militar da humanidade.Na iminência da batalha, os persas ordenaram aos gregos que entregassem as armas. Leônidas grita "venham pegá-las!” (come and get them!), frase usada hoje como emblema pelo Primeiro Corpo de Infantaria do Exército grego. Avisados de que as flechas disparadas pelas persas encobririam o sol, os espartanos respondem dando risada: "melhor pois lutaremos à sombra" !O filme de Zack Snyder não pretende ser de maneira alguma um épico histórico, embora seja baseado na batalha histórica. O filme é antes de tudo uma graphic novel colocada na tela grande. Quem espera um filme ao estilo Braveheart ou Kingdom of Heaven e que não tenha simpatia pelo universo das HQ's não deve ir ao cinema por 300. A grande atração do filme é justamente o visual louco do mundo de Frank Miller, com suas cores e sombras, seus monstros e criaturas fantásticas, mulheres sexy e batalhas e lutas estilizadas. Rodrigo Santoro como Xerxes parece saído de algum night club fetichista Nova Iorquino, e Gerard Butler está perfeito como Leônidas comandando seus chippendales.Há um claro teor político no filme, que parece ser mesmo proposital. Os persas são pintados como brutos místicos e bárbaros sedentos de poder enquanto os gregos defendem em seus discursos a liberdade e a democracia contra a "ameaça asiática". Os jornais do Irã (antiga Pérsia) já disseram que Hollywood lhes declarou guerra.
A verdade é que se não fosse por Leônidas e seus 300 espartanos talvez a história da Europa fosse muito diferente hoje.

Sunday, April 01, 2007

Marie Antoinette


Ela era a caçula de 15 irmãos, e tinha 16 anos quando casou por procuração com Louis Auguste, neto de Louis XV e Delfim da França em 1770. Já casada, deixou a corte dos Habsburgos na Áustria para ir viver em Versailles ao lado de seu marido, o futuro rei Louis XVI da França.
Estrangeira e jovem demais, Marie Antoinette mergulha em Versailles, em meio ao protocolo, às fofocas, e a um casamento que levaria sete anos para ser consumado.
A futura Rainha se deita, acorda, almoça e janta sob o olhar da corte. Ao lhe explicarem que sempre a dama presente com o posto mais alto na hierarquia aristocrática seria encarregada de vesti-la, e que ela não poderia fazer nada sozinha, ela diz: “This is ridiculous”. Ao que a dama lhe responde: “This, Madame, is Versailles!”.
Louis XVI ao que parece se interessava mais pelas caçadas do que pelo casamento ou pelas mulheres em geral. O Delfim tinha casado sem que ninguém o explicasse direito como a coisa funcionava. Somente os conselhos de seu cunhado alguns anos mais tarde é que fariam algum efeito, e só então Marie Antoinette daria o tão esperado herdeiro ao trono da França.
O fantástico filme de Sofia Coppola, com Kirsten Dunst no papel principal (adorei ver as duas juntas de novo depois de Suicide Virgins) mostra Marie Antoinette como a primeira fashion-victim. É uma garota de maneira nenhuma interessada por assuntos de Estado, com um casamento vazio e a hercúlea tarefa de sobreviver às fofocas e ao protocolo de Versailles. Sobrecarregada pelo peso da responsabilidades que lhe atribuem, Marie Antoinette refugia-se com um círculo de amigos íntimos em uma rotina de luxo e diversão. Ela quer moda, espetáculos, jogo, festa, paixão, esbanjamento e tudo o mais que faria dela uma das figuras mais odiadas dos revolucionários de 1779.
As fofocas e o ódio contra seu modo de vida crescem contra ela na mesma medida em que o furor revolucionário cresce fora de Versailles.
Marie Antoinette era umas dessas garotas “just want to have fun!”. Infelizmente na época e lugar errados. A última cena do filme com seu quarto em Versailles depredado após a revolução, prelúdio de seu trágico destino, mostra o fim de uma era.
A história hoje faz justiça à coragem e à altivez de Marie Antoinette em seus últimos dias antes da guilhotina. Suas últimas palavras foram um pedido de desculpas ao seu carrasco por ter sem querer pisado em seu pé. Até mesmo a famosa frase dita ao povo faminto: “que comam brioches”, parece ter sido invenção da intriga palaciana. Ao saber da falta de pão, ela teria escrito em seu diário: "É certo que ao ver que o povo nos trata tão bem apesar de sua desgraça, é mais que a nossa obrigação trabalhar duro pela sua felicidade. O Rei parece entender esta verdade, e eu, sei que em toda minha vida, nem que viva por cem anos, eu esquecerei o dia de minha coroação".

Red Hot Chili Peppers rules



Snow (hey Oh)
Red Hot Chili Peppers


Come to decide that the things that I tried
Were in my life just to get high on
When I sit alone come get a little known
But I need more than myself this time


Step from the road to the sea to the sky
And I do believe that we rely on
When I lay it on
Come get to play it on
All my life to sacrifice


Hey oh listen what I say oh
I got your
Hey oh now listen what I say oh

When will I know that I really can’t go
To the well one once more time to decide on
When it’s killing me
When will I really see
All that I need to look inside

Come to believe that I better not leave
Before I get my chance to ride
When it’s killing me
What do I really need
All that I need to look inside

Hey oh listen what I say oh
Come back and
Hey oh look at what I say oh

The more I see the less I know
The more I like to let it go… hey oh

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it’s so white as snow
Privately divided by a world so undecided
And there’s nowhere to go

In between the cover of another perfect wonder
Where it’s so white as snow
Running through the field where all my tracks will
Be concealed and there is nowhere to go

When to descend to amend for a friend
All the channels that have broken down
Now you bring it up
I'm gonna ring it up
Just to hear you sing it out

Step from the road to the sea to the sky
And I do believe what we rely on
When I lay it on
Come get to play it on
All my life to sacrifice

Hey oh listen what I say oh
I got your
Hey oh listen what I say oh

The more I see the less I know
The more I like to let it go, hey oh

Deep beneath the cover of another perfect wonder
Where it’s so white as snow
Privately divided by a world so undecided
And there’s nowhere to go

In between the cover of another perfect wonder
Where it’s so white as snow
Running through the field where all my tracks will
Be concealed and there is nowhere to go

I said hey, oh yeah, oh yeah tell my love now
Hey yeah yeah, ooh yeah tell my love now

Saturday, March 31, 2007

A ditadura das minorias organizadas


O Brasil tem uma Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A Secretária com status de Ministra, Matilde Ribeiro, disse que não é racismo um negro se insurgir contra um branco. Essa é a igualdade racial que a Matilde quer promover? Em um país civilizado ela estaria no olho da rua, no Brasil o PT lhe passa a mão na cabeça. Mais uma menina aloprada.
Esse tipo de pensamento, especialmente grave quando saído da boca de uma Ministra, encontra paralelos nas orientações ideológicas de toda minoria organizada, seja essa minoria negra, homossexual, indígena ou feminista.
Um negro pode sair na rua com uma camiseta que diz “100% Negro”. Imaginem um branco sair na rua com uma camiseta “100% branco”. Um gay pode mostrar repulsa quando se refere a uma relação heterossexual. Um hetero que exprime repulsa ao relacionamento homossexual é opressor.
Tão ridículo quanto, foi o pedido de desculpas apresentado por Lula aos povos africanos pela escravidão. Algum povo africano também pediu desculpas por ter escravizado durante séculos os próprios vizinhos? Eu deveria pedir desculpas aos marroquinos que encontro na rua porque no século XV meus antepassados estavam a decapitar mouros no Península Ibérica? Ou os marroquinos deveriam se desculpar por terem invadido a Europa no século VIII?
Contardo Calligaris escreveu que foi nos primeiros séculos da Cristandade que começou a idéia de que o limite da humanidade não é a tribo, a raça, ou a fé. Se somos humanos, somos irmãos. Foi a evolução da civilização ocidental baseada nessa idéia que fez com que as minorias oprimidas de sempre dispusessem hoje de uma segurança e de um respeito de que nunca dispuseram antes na nossa história.
Ainda há que evoluir, sem dúvida nenhuma. Mas que as minorias usem sua condição de históricos oprimidos para conseguirem direitos superiores ao dos outros, isso não é lutar pela igualdade, é lutar para impor sua ditadura. Martin Luther King sim, Black Panthers não.

Julia Fullerton-Batten


Free Hugs


O You Tube criou um Awards para seus vídeos mais visitados em 2006. O vídeo criado pelo malucão australiano Juan Mann foi visto mais de 12 milhões de vezes e se tornou rapidamente o sucesso do site.
No filme, com uma bela música dos Sick Puppies ao fundo, Juan passeia pelas ruas de Sidney segurando um cartaz onde se lê “free hugs”, ou seja, oferecendo seus abraços aos carentes de passagem.Apesar do estranhamento inicial, há quem embarque na brincadeira e vá lá abraçar o cabeludo.
A idéia original pegou e o filme de Juan Mann foi imitado em cidades como Amsterdam, Barcelona, Chicago e até na China...
Nesses dias tão apressados e nessas cidades tão lotadas, onde paradoxalmente somos tão solitários, nada melhor do que alguém a lembrar que há ternura no mundo.
Is the kindness we count upon, hidden in everyone?

http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4

Wednesday, March 28, 2007

Boeuf Wellington


Por falar em banquete há tempos eu não fazia um post culinário.
Pois fim de semana passado fiz o prato mais sofisticado que já consegui nessa minha cozinha.
Boeuf Wellington, assim chamado em homenagem ao primeiro Duque de Wellington que adorava uma carne, é um prato feito com filé mignon envolvido em duxelles e massa folheada.
A peça de filé mignon deve ser bem frita para selar o seu exterior. Duxelles é uma mistura preparada com champignons frescos e cebolinhas échalottes picadas, ervas sal e pimenta, tudo frito junto com o champignon em azeite. Essa mistura deve ser seca em papel toalha, e a ela pode-se misturar patê de foie gras. A peça de carne é envolta dentro dessa mistura e colocada dentro da massa folheada. Pincele a massa com gema e leve ao forno, 45 minutos para 600g de carne a 200°C.
Para servir faça um molho com caldo de carne e vinho Madeira ou Porto.
Não ficou exatamente igual ao da foto mas a idéia é essa...
Chique no úrtimo.

O Banquete


A Editora Jorge Zahar lançou recentemente uma coleção de livros relacionados à história da gastronomia no mundo. E eu para minha alegria ganhei a coleção toda no Natal passado! Comer e beber bem é um prazer em si. Conversar ou ler sobre comida e bebida é um prazer complementar.
O que li agora foi “Banquete” de Roy Strong, historiador pela Universidade de Londres.
O objetivo do livro é mostrar a evolução das refeições em comum, principalmente da aristocracia desde a Grécia Antiga até o princípio do século XX.
Strong baseia-se nas descrições de livros e relatos antigos além de pinturas e gravuras para descrever em detalhes como os cardápios e as maneiras à mesa foram mudando ao longo dos séculos.
Os gregos tinha sua cozinha baseada em peixes e frutos do mar, com alguma carne de caça e de carneiros ou porco, e comiam frutas, nozes, mel, pão e outras massas. Nos banquetes havia vinho, sempre misturado com água, e música nos intervalos.
Os romanos comiam reclinados em divãs, na refeição conhecida como convivium. Mais ou menos como hoje em dia, comia-se um aperitivo, depois alguma carne de vaca ou porco na maioria das vezes, mas também peixes, faisões e gansos. Depois frutas como sobremesa.
Na Idade Média adotaram-se a mesa e as cadeiras, e apareceram os banquetes com vários pratos servidos em procissão por uma hierarquia de criados. Comia-se principalmente caça nas mesas nobres, cervos, javalis e coisas esquisitas como pavões e cisnes, cujas penas eram remontadas sobre os bichos depois de assados. Roy Strong fala ainda da importância das especiarias, especialmente o açafrão usado para colorir toda a comida de dourado, cor da riqueza. Nobres comiam observados pelos súditos que ganhava os restos. Os espetáculos de música e teatro, herança de gregos e romanos continuavam nos intervalos entre os serviços, e cada vez mais elaborados. Apareceram também os primeiros manuais de etiqueta.
Na Renascença italiana é que o banquete alcançou seu maior requinte, com pratos esculpidos em diferentes formas para agradar os olhos. As carnes exóticas desapareceram dando lugar ao boi, carneiro e vitela, e as especiarias foram trocadas pelos temperos europeus como manjericão, orégano e salsa. Os italianos desenvolveram as massas, e foram os primeiros a usarem o garfo. Apareceram também navidades das novas colônias como o tomate e a batata e o açúcar de cana.
Da Itália a arte culinária expandiu-se para a França graças aos casamentos dos Médicis com a família real francesa. A França desde então tornou-se a referência mundial em culinária. Os banquetes tiveram seu apogeu na corte de Luís XIV, e depois foram se tornando cada vez mais uma ocasião íntima até a Revolução Francesa onde só se banqueteava em público e junto ao povo.
A burguesia emergente da Revolução Industrial adotou novamente os jantares, especialmente na Inglaterra Vitoriana como forma de afirmar seu novo poder.
Ao longo de toda essa história, e até hoje, o Jantar é a forma da aristocracia afirmar seu poder, dizer quem é aceito ou não naquele círculo.
Roy Strong mostra que toda a culinária e a etiqueta foram desenvolvidas na verdade para separar quem pertence àquela classe da ralé.
Para quem gosta de comida este livro é um prato cheio.

Sunday, March 25, 2007

Europa


Fazem 50 anos que um punhado de nações, recém saídas de uma guerra fratricida assinaram o tratado que criava a Comunidade Econômica Européia, futura União Européia. Poderei contar aos meus netos que eu estava aqui quando as primeiras notas de euro saíram nos caixas eletrônicos.
Apesar do pessimismo geral que toma conta dos europeus, preocupados com a economia e a imigração, arrisco a dizer que uma marcha a ré seria hoje impensável.
Os europeus estão percebendo que o futuro deles está em uma União forte e estável. Umberto Eco em uma artigo seu compilado no livro A Passo de Caranguejo conta que mesmo entre cidadãos de culturas tão diferentes como italianos e ingleses, suecos e espanhóis existe hoje uma identidade comum. Todo país europeu viveu uma guerra perto de casa, passou por um governo autoritário, tiveram disputas religiosas. Toda essa história comum está hoje impregnada nesta identidade comum européia.
A recente invasão do Iraque mostrou o quão dividida a Europa ainda se encontra em relação a assuntos de interesse comum. Este ano, tanto Tony Blair como Jacques Chirac deixarão seus respectivos cargos de Primeiros Ministros e a vida política. Enquanto a reputação de Blair, um superstar da política manchou-se com as desculpas para invadir o Iraque e o irrestrito apoio aos EUA, o legado mais marcante de Jacques Chirac foi justamente o de ter antecipado o quanto essa invasão seria desastrosa.
Mas com o centro do mundo hoje deslocado para o Pacífico entre EUA e China, Umberto Eco diz que a Europa deve se unir em torno de uma política, de uma constituição e de uma defesa militar comunitária. Do contrário balcaniza-se, com cada país buscando apoio e fechando acordos independentemente da União.
A Europa poderá se expandir, mas não indefinidamente. O papa Bento XVI diz que a Europa é um “conceito”, mais do que uma demarcação geográfica, e está certo. A Turquia por exemplo não pode simplesmente querer entrar para a Europa, é preciso que a Turquia queira ser européia. Assim, uma União não se constrói simplesmente com pura vontade, mas com ideais comuns.
Seria possível por exemplo que a Europa fosse usada como modelo para uma futura integração mundial, e que no futuro estaríamos sob a égide de uma União Mundial, com um governo planetário? O filósofo Olavo de Carvalho em um artigo intitulado Estupidez Criminosa diz que esta perigosa idéia já está em andamento, em tratados, discursos e ações efetuadas por uma nova forma de “imperialismo” cujo objetivo seria destruir o poder e a soberania americana dissolvendo-a em um governo mundial a ser controlado pela ONU. Hugo Chávez por exemplo já disse querer fundir todos os países da América do Sul em uma espécie de União Bolivariana.
Eu acredito na Europa porque acredito que depois de toda sua história compartilhada, os europeus tenham encontrado ideais comuns pelos quais devem se guiar de agora em diante. Mas não acredito que os brasileiros tenham o mesmo ideal que Hugo Chavez e não acredito que o Brasil e a China possam ser governados pelos mesmos instrumentos. Daí eu compartilhar a opinião de Olavo de Carvalho de que a idéia de um governo mundial parece absurda. Precisaremos de alguns milênios a mais de globalização para que algo parecido possa se concretizar. Há que se tomar cuidado com quem sugere tais idéias hoje. São os que querem mandar.

Saturday, March 24, 2007

Porto


Há alguns lugares na Europa por onde já passei que ficarão para sempre impressos na memória como cartões postais. A praça de Bruxelas, o Gran Canale de Veneza, Paris à noite, e muitos mais. Meu cérebro tem essas imagens tão marcadas que posso fechar os olhos e viajar a esses lugares digamos, durante reuniões de trabalho...
Um deles é certamente este, o casario da cidade do Porto visto de Vila Nova de Gaia.
Ali na margens do rio Douro é cais da Ribeira. Foi o Douro a fronteira norte do sultanato árabe em Portugal durante a ocupação. Ali entre as ladeiras está todo o centro histórico da cidade, e ao lado está a Ponte D. Luís I, essa fantástica estrutura projetada por Gustave Eiffel.
Fui ao Porto a trabalho, infelizmente. E tive o prazer de ver minha mala ser extraviada pela TAP cuja sigla significa, segundo um amigo português, Take Another Plane. A mala em si não foi um problema já que me dispensou do uso do terno e ainda me rendeu algumas compras pagas pela companhia. Meu problema é estar em uma cidade como o Porto e ter que trabalhar ao invés de andar pela cidade, comendo e bebendo todas as delícias que Portugal oferece. O meu problema é que a modernidade inventou o celular, o lap-top e o blackberry para que a nossa jornada de trabalho pudesse passar de 8 para 24 horas como se fôssemos todos imbatíveis Jack Bauers sempre ao alcance do chefe.
Mas mesmo assim ainda pude desfrutar de um belo bacalhau e um bom vinho do Porto na companhia de amigos e com esta invejável vista. Ali mesmo em Gaia é que chegam os barcos trazendo os tonéis de vinho produzidos no vale do Douro. E ali estão as caves das grandes vinícolas do Porto, onde o vinho será misturado à aguardente vínica e envelhecido em garrafas ou barris de carvalho. Assim é produzida a mais famosa contribuição portuguesa aos amantes de vinho do mundo, e especialmente apreciada pelos ingleses. O vinho do Porto é tão “british” que é a única bebida com a qual se pode fazer um brinde à Rainha da Inglaterra.
Pois terei que voltar ao Porto ainda só passeando, experimentando um cabrito aqui, uma “francesinha” ali, um bacalhau acolá, degustando um Tawny ali no cais e aproveitando o fato de estar ali dentro desse cartão postal saboreando a vida.
Para todos os apreciadores da boa vida, aqui vai o melhor site para saber mais sobre vinho do Porto e onde pode-se comprar as melhores garrafas:

http://www.theportwine.com/

Extreme Home Makeover


Reality TV é provavelmente a pior invenção, holandesa diga-se de passagem, já criada pela indústria do entretenimento. Fora ter servido a colocar John de Mol como um dos dois holandeses na lista de bilionários da Forbes ( o outro é o herdeiro da Heineken), a reality tv transformou seres humanos em ratos de laboratório eletrônicos dispostos a enfrentar qualquer cretinice pelos seus Warholianos 15 minutos de fama.
Extreme Home Makeover é um programa que no entanto me emociona. Nada a ver com o fato de que essas pessoas conseguem construir uma casa em 7 dias. Para mim colocar azulejos na cozinha já foi um trabalho de Hércules. Mas ver as pessoas, normalmente de famílias passando por crises ou dificuldades dessas que a vida nos reserva, voltando a um novo lar e tendo uma perspectiva de recomeço é emocionante.
Esses dias uma mãe solteira tentava criar sua filha e outras quatro adotadas, todas excepcionais ou deficientes físicas.
É claro que a televisão quer audiência, que os empreiteiros querem propaganda. Mas entre as pessoas que têm sua casa reconstruída não há demonstrações de vaidade ou arrogância, não há o desejo pela fama. Há simplesmente a alegria pura de ter a dignidade, junto com sua casa, restaurada. A dignidade de um homem como dizia Abbé Pierre começa com um lar nesse mundo. Aos que tem a sorte de caírem nesse show, só sobra a humildade de agradecer o presente dizendo thank you ABC.