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Thursday, August 19, 2010

Repórteres...


O vídeo que aparece aqui é da reportagem do SBT Repórter de segunda feira passada. Eu apareço ali entre o 7:10 e o 7:14 minutos deste bloco.
São 4 segundos de fama na TV mais feliz do Brasil.
Para aparecer 4 segundos, saí de são Paulo em uma van e passei o dia gravando em uma fazenda em Paulínia. Falei horas sobre o impacto ambiental da pecuária, de como a ciência e a tecnologia podem mitigar esses impactos, falei de recuperação de pastagens, da importância que isso terá no combate ao desmatamento, falei de mitos sobre as emissões de metano, falei de nutrição animal.
Tudo isso para que a edição do programa usasse apenas uma frase "engraçadinha" para ir ao ar.
Eu queria fama? Não, principalmente não junto com Silvio, Hebe & cia. Eu apenas cometi o erro de acreditar que a TV realmente se interessa em esclarecer a população sobre determinados assuntos. Mas não foi a primeira vez, e nessas experiências aprendi um pouco sobre jornalismo. Algumas lições (que valem uma faculdade de jornalismo):

1. Reportagem que vende é a que apela às massas. Segundo o Gilberto Smaniotto, nessa categoria estão reportagens sobre comida, sexo e histórias policiais. Fora disso o assunto é "cult".
2. Repórteres são seres absolutamente ignorantes em todos os assuntos. Na verdade, eles aprendem que não precisam saber nada, já que a função deles é a de reportar, ou seja, a de dizer "Fulano que é especialista falou isso". O problema é que nesse processo ele vai acumulando o que ouviu a torto e a direito, e o resultado é o repórter que continua sem saber nada mas que agora acha que sabe tudo.
3. Não interessa qualquer tipo de informação relevante que você queira passar ao público. É o repórter quem decide o que ele acha que é relevante (e isso sem saber nada). E nessa tarefa, ele não vai obviamente reportar o que você acha importante, ele vai ficar de olho na sua frase mais "engraçadinha" ou "polêmica" para por no ar (tipo: carne de porco é afrodisíaca, frase dita pela infame Cristina Kirchner e ridicularizada na Argentina inteira). Essa é a que chama a atenção e traz ouvintes, telespectadores e leitores. Informação é efeito colateral.
4. Jornalismo tem obsessão pelo "outroladismo". Se há uma notícia ruim sobre o PT, ele busca outra pior sobre o PSBD para por na mesma página do jornal. Se a reportagem é sobre carne, vamos ouvir os vegetarianos. Não interessa se o "outro lado" está dizendo os maiores absurdos.
5. O "outroladismo" não significa em absoluto imparcialidade. Porque tudo o que o repórter juntou, ele passa a seu editor. E aí você depende das boas graças desta figura para saber se sua mensagem passou ou não. No caso do SBT Repórter, o editor achou por bem destacar o casalzinho-campineiro-moderno-descolado-consciente-eu sou jóia-vegetariano (que domina o resto do programa) cozinhando estrogonofe de cogumelo e relacionar o consumo de carne aos peões do Pantanal e churrasqueiros pançudos.
6. A praga do politicamente correto que assola a inteligência do país está obviamente presente no jornalismo. E segundo os editores do SBT, politicamente correto é não comer carne. Nessa reportagem, como notado por alguns amigos com um mínimo de QI, o recado foi: Se possível evite carne. Ou como diz a top do Esquadrão da Moda: "Geeeente, meu sonho é ser vegetariana"...Comer carne virou sinônimo de peso na consciência. Felicitações ao jornalismo engajado.

Bem, longe de mim interferir na liberdade de imprensa. Mas a lição está aprendida. E como foi dito no Congresso da ABAG, se o agronegócio quiser aprender a se comunicar melhor, é bom ele mesmo tomar para si esta tarefa.

Tuesday, July 06, 2010

Heróis da Resistência


Tempos atrás, era costume das famílias rezar antes das refeições. Sim, rezar para agradecer o alimento recebido. Luiz Felipe Pondé diz que muitos teólogos, sejam eles judeus, cristãos ou muçulmanos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece.
Os americanos, estes porcos imperialistas, têm até um dia especial no ano para agradecer a Deus não só pela mesa farta à sua frente, mas por tudo o que receberam.
Não custa lembrar, os períodos de colheita em toda a história da humanidade sempre foram celebrados em festividades religiosas, como até hoje é o caso das nossas festas juninas.
Infelizmente, nos dias urbanos e de fast-food em que vivemos, comendo às vezes até de pé, damos nossas refeições por garantidas.
Nossas crianças acham que o leite nasce dentro da caixinha tetra-pak e o bife é espontaneamente gerado em bandejas de isopor. Achamos que a comida vem do supermercado, que sempre estará ali, repleto de queijos já prontos, manteiga já batida, carne já desossada, frutas já cortadas, e saladas já lavadas, além de todo o assortiment de guloseimas pré-fabricadas de composição indefinida prontas a garantir a nossa obesidade.
Não temos mais idéia do que é o trabalho de plantar, colher, cuidar, ordenhar. E por incrível que pareça, nos esquecemos de agradecer também quem faz esse trabalho por nós.
São produtores rurais, estes impressionantes personagens que entendem um pouco de terra, um pouco de água, um pouco dos ventos e das chuvas, das plantas e dos animais, e ainda precisa entender de dinheiro.
Vou falar de um Produtor Rural.
Há muito tempo seu pai lhe levou para aquelas paragens. O governo dizia para migrarem, para derrubarem a mata e assim teriam terras. Dormiam em casa de pau a pique, teto de palha e chão batido, lampião de querosene e fogão de lenha. Abriram mata, semearam e colheram. Criaram bois. Deu certo. Ele, que era menino, virou Produtor Rural.
O Produtor Rural não estudou, é fato, embora tenha feito todo o esforço do mundo para que seus filhos pudessem ir à faculdade. Mas não é ignorante. Conversa com gente nova, aprende coisas. Melhora sua plantação, compra máquinas. Usa adubos, sementes, insemina o gado. O que ele produz hoje na mesma fazenda é com certeza bem mais do que seu pai produzia. Ele e outros, mesmo sem saber sustentam a economia de todo um país.
Mas anos depois aparece um fiscal do governo em suas terras. Diz que ele está ilegal porque plantou café no morro e não pode. Aplica uma multa porque na beira do rio onde o boi bebe água deveria estar cercado, e no “corguinho” que passa na fazenda devia ter 15 metros de árvores dos dois lados, embora ele explicasse que quando foram para lá ninguém lhes falou dessas regras.
Aparece outro fiscal, e lhe dá multas porque ele deveria por banheiros para seus empregados lá no meio da roça, como se ele algum dia tivesse tido esses luxos. E outra multa porque seu tratorista come sua marmita debaixo da árvore quando deveria ter um refeitório para comer.
Outro dia vem um outro rapaz estudado, e diz que seus bois deveriam ter brinco, e que cada uma deveria ter um documento de identidade. Diz que os europeus estão preocupados com isso e querem os brincos porque é mais saudável. O Produtor Rural não entende muito bem porque para ele mais saudável que aquele boi seu que passou a vida ali no pasto não existe, e se pergunta se boi europeu tem aquela vida boa. Mas vai na dele e põe brinco em tudo. Depois lhe dizem que as regras mudaram, e o que ele fez precisa ser refeito.
Aí aparece um outro cabeludo, com sotaque de gringo. Fala que quer preservar a biodiversidade, que o mundo todo está muito preocupado e diz que se ele plantar árvore um dia vai receber por aquilo. Mas quem é da roça desconfia, e normalmente se é pra fazer serviço quer ver a cor do dinheiro antes. Ele pergunta ao moço se no país dele tem muita mata, e ouve que não, e que é por isso que ele devia plantar mais árvores ali.
Uma moça toda arrumada diz que é do supermercado, e vem falando coisas bonitas como paradigmas, sustentabilidade, mudanças climáticas, e diz que o consumidor está muito preocupado, e lhe dá um manual de regras pra seguir.
Um outro rapaz de sandália de couro e bolsa de tricô diz que é da ONG, e traz um calhamaço de leis que o Produtor nem sabia que existiam. Diz que a sociedade está muito preocupada, porque quase todos os Produtores são ilegais e ele não deveria continuar assim.
Aí aparece um doutor do Governo, diz que tem que zelar pelo bem do País e pela Constituição, e que o Produtor deve assinar um papel e ajustar sua conduta, que ele não sabia que estava desajustada. E se ele não assina não pode mais vender nada para ninguém.
Uma outra moça, cara de francesa, chega e fala que está muito preocupada lá onde ela mora porque o clima do mundo está mudando, e ela diz que as vacas dele estão esquentando o mundo. O Produtor se espanta e dá risada ao perguntar como.
Um outro doutor, estudado, diz que a fazenda dele é na verdade terra dos índios, e que está preocupado com os índios porque nós matamos quase todos eles, que eram os donos do Brasil. Tem índios ali perto, já donos de bastante terra. O Produtor viu uma vez o governo construindo casas para os índios, e dando cestas básicas aos índios dali. E viu o material de construção das casas sendo vendido na cidade, e as cestas trocadas por pinga.
Aí aparece um padre, com uns índices na mão. Diz que o produtor não produz o que está escrito ali, e que portanto a terra dele devia ser dada para quem precisa. O padre está muito preocupado com os excluídos. O Produtor pergunta quem são os excluídos, e reconhece ali um povo que nunca trabalhou em roça. Tem garçom, ajudante de pedreiro, tem até funcionário público. E ele vê esse povo recebendo dinheiro do governo todo mês. E se pergunta se o excluído não é ele que paga um monte de imposto e ainda tem que pagar escola para os filhos, seguro saúde e ainda anda em estrada esburacada, sem receber dinheiro nenhum do governo de volta.
O Padre volta com outro doutor, que quer que ele prove que um dia no passado o governo realmente fez um papel dizendo que aquela terra era do seu pai. O Produtor pensa que se o governo durante esse tempo todo cobrou impostos dele por aquela terra é porque sabia que era dele, ou não?
Aí o Produtor vai no banco, quer emprestar para investir e produzir mais, plantar árvore. E um gerente do banco, que diz que está muito preocupado com o planeta e o clima diz que só empresta se ele cumprir todo um outro livro de regras. O Produtor se pergunta se o dono do banco sabe se o dinheiro que está ali vem de drogas, de jogo, de corrupção de políticos, de venda de madeira ilegal. Mas se cala e desiste daquilo.
Então o Produtor vai dar uma volta na cidade. Ele vê favelas nos morros de tudo quanto é jeito, e depois vê na TV que o morro desabou na chuva e um monte de gente morreu e se pergunta se o moço que disse que não podia plantar no morro tinha ido lá ver aquilo. Vê um monte de esgoto sendo jogado no rio e se pergunta se o doutor que queria zelar pelo bem do País foi atrás de quem fazia aquilo. E vê no jornal que o chefe do fiscal que lhe havia multado foi preso por tráfico de madeira. Vai no supermercado, e em sua economia simples faz uma conta e vê que o quilo de carne vendido ali custa quase dez vezes mais o que ele recebeu pelo boi, embora ele tenha ficado três anos cuidando do bicho e o supermercado três dias cuidando da bandejinha. E vê o povo comprando o que é mais barato mesmo, e se pergunta se tudo o que está ali segue as regras que a moça arrumada lhe deu para seguir.
O Produtor começa a desconfiar que aquele povo todo preocupado que foi na sua fazenda está preocupado mais é em justificar os próprios empregos uns aos outros. Todos tem trabalhos tão bonitos, é consultor disso, coordenador daquilo, empresa de governança, ONG de sustentabilidade, tem até uns cargos em inglês que ele nem sabe o que são. Ele é do tempo em que você sabia o que a pessoa fazia. Era o açougueiro, o peão, o padeiro, o sapateiro... Então ele decide que não quer fazer mais nada daquilo.
Chamam-no de turrão, ignorante, reacionário, desconfiado, atrasado. Dizem que ele não quer se adequar aos novos tempos, não entende como funciona o mundo, não liga para a natureza e nem para a sociedade. Logo ele que passou a vida aprendendo como a natureza funciona e que faz comida para esse povo todo.
E o Produtor vai lá para o seu fim de mundo, em uma estrada esburacada e esquecida, escutando no rádio que o copeiro do Palácio ganha R$ 9.000 reais por mês, e que mais alguém havia sido pego com dinheiro na meia ou na cueca.
Apesar de tudo continua produzindo.
Não, nós não agradecemos pela comida. Nós pegamos quem a produz e colocamos no cantinho da sala, ajoelhado no milho, com um chapéu de burro na cabeça. Nós pegamos o Produtor, lambuzamos ele de piche e jogamos penas de galinha em cima, fazendo-o perambular pelas ruas da cidade. Podemos também colocá-lo numa gaiola para que seja cuspido e apedrejado por quem passar.
Ou, melhor ainda, vamos costurar uma Estrela de Davi nas roupas de todos eles, para podermos identificá-los bem. Como estão quase todos na ilegalidade, poderemos colocá-los todos fechados em um campo de concentração. Então será fácil tomar essas terras e aí sim poderemos produzir como se deve, deixando o mato crescer, a Terra esfriar e todos os índios e animais felizes na floresta.
Eu sempre tive um respeito nato por quem produz, simplesmente pelo heróico ato de produzir.
Hoje, meu respeito é também pelo heróico ato de resistir. Resistir a uma sociedade obcecada pelo controle da vida alheia em todos os aspectos. Resistir a uma relativização de direitos básicos de toda sociedade democrática. Resistir ao despotismo estatal. Resistir à ditadura de minorias. Resistir ao globalismo ecológico. Resistir a uma Justiça parcial. Resistir à centralização de poder. Resistir à delegação de responsabilidades. Resistir em suma ao fascismo que se desenha em nosso futuro.
Sei que é luta inglória e que fatalmente a Resistência cairá. Mas tenho meu respeito declarado e minhas armas à disposição da luta.
E hoje rezo não só para agradecer o prato de comida à minha frente, mas para pedir que ele continue aparecendo sempre.

Wednesday, June 23, 2010

Código Florestal


Flagrante via satélite de uma propriedade em situação irregular, sem Área de Proteção Permanente (30 metros em todas as margens do lago) e nem Reserva Legal (35% da área total no Cerrado) às margens do Lago Paranoá.
Pela legislação brasileira, impedindo a regeneração natural da RL e da APP, o proprietário deverá ser autuado em R$ 5.000,00/ha, cumprindo o que determina o Dec. 6.514/2008, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais.
O Ministério Público Federal deverá ajuizar Ação Civil Pública contra o proprietário, que deverá assinar um Termo de Ajuste de Conduta e reparar o dano causado ao meio ambiente nesta e nas demais áreas de sua propriedade.
A área deve ser embargada, com a retirada imediata dos colonos e a suspensão imediata de todos os benefícios e financiamentos ao ocupante, que também terá impedida a comercialização de qualquer produto oriundo desta área.
Alguém conhece o dono?

Friday, June 18, 2010

Wednesday, May 26, 2010

O sertão vai virar mar


Vosmecê conhece a caatinga?
Eu já andei pela caatinga do sertão nordestino.
Sertão mesmo, de caatinga, aquele descrito por Euclides da Cunha e Graciliano Ramos. O céu é daquele “azul terrível, que deslumbrava e endoidecia a gente”. O sol, inclemente. A poeira, as pedras, os leitos de rios secos, os mandacarus e xiquexiques.
E no meio de tudo o homem, o sertanejo. Casas de pau a pique, paredes de barro, telhado de palha, chão de terra batida, sem água, nem luz, nem gás. Esgoto nem pensar.
Às vezes, na beira da estrada, em açudes, mulheres que aparentavam 20 anos a mais do que realmente tinham, tomavam banho com suas crianças. Elas, seminuas, peitos encostando nos joelhos, judiadas. As crianças magricelas, com aquele bucho de verminose. Freqüentemente o que tinham para comer era caju com farinha.
O sertão sempre maltratou o homem, não é à toa que tantos fugiram dali, inclusive nosso presidente.
No fim dos anos 80, me lembro de ter feito uma viagem de carro com meu pai do Piauí a São Paulo. De Teresina a Floriano, dali a Gilbués, Corrente, Formosa, Riachão das Neves, aí chegava-se a Barreiras na Bahia.
Virando à esquerda, ia-se até Mimoso do Oeste, um distrito de Barreiras, e dali pegava-se a BR-020 que cortava o sertão baiano até entrar em Goiás e chegar-se ao Distrito Federal.
Era o trecho mais desolador da viagem. Passamos 4 horas na estrada reta, sem cruzar viv’alma pelo caminho. Só caatinga, sequidão, buracos e poeira. Nenhum sinal de vida. Aqui e acolá um bode, ou uma carcaça de vaca embranquecendo ao sol.
Meu pai percorreu a mesma estrada esses dias. Mimoso do Oeste virou hoje o município de Luís Eduardo Magalhães, é a décima economia da Bahia e tem uma das maiores rendas per capita do Brasil. A região, a de maior concentração de pivôs de irrigação do país, produz 60% dos grãos do estado.
O gadinho curraleiro, de costelas aparecendo, sumiu para dar lugar a gado com a melhor genética brasileira.
Campos de soja são intermináveis, algodoais fazem crer que caiu neve no sertão.
No sul do Piauí a mesma coisa. Agora o eucalipto chega por ali, e a Embrapa faz experimentos com figos, maçãs, uvas e até oliveiras israelenses.
O que era caatinga virou uma promissora fronteira da agroeconomia. Mesmo no que ainda é caatinga, como na região em volta de Picos no Piauí, hoje existem alternativas para o homem do campo. Picos é um dos maiores pólos exportadores de mel do país, mel silvestre, sem contaminação e de excelente qualidade.
Por isso, quando vosmecê ouvir alguém dizer que o agronegócio oprime o trabalhador, quando um padre ou um bispo de olhos vermelhos falar que o agronegócio cria uma multidão de excluídos, quando uma atriz de rosto bonito e cabeça oca dizer que é contra a obra de transposição de um rio, quando um intelectual de apartamento e bandeira vermelha na mão dizer que o agronegócio provoca o êxodo rural e que é por causa dele que há favelas na cidade, desconfie.
Dê uma volta em Luís Eduardo Magalhães. Veja se a vida do sertanejo do lugar, que hoje tem emprego, plano de saúde e pode pagar escola está melhor ou pior de quando não havia agronegócio por ali.
Ou seria preferível amarrá-los para sempre à própria miséria condenando-os a viver com uma bolsa-esmola todo mês em troca da adulação eterna?
O sertão pode sim, virar um mar de prosperidade. E não vai ser com esmola, vai ser com a força de quem trabalha e produz.

Saturday, May 15, 2010

Onde foi parar minha Igreja?


Um colega agrônomo, que assistiu uma missa de Dia das Mães, me trouxe uma cópia do semanário litúrgico usado durante a cerimônia.
Na última página havia uma reflexão sobre Ecologia e Missão que começa com a seguinte frase:

“Diante do avanço da industrialização e da urbanização, impõe-se-nos esforço coletivo para salvar a vida do planeta.”

Este pequeno prólogo é notável porque resume em uma frase o charco ideológico onde atolou a Igreja Católica latino-americana. Industrialização e urbanização são necessariamente transformadas em causas de catástrofes para o planeta, sendo que a única solução contra esses males está em impor-nos um “esforço coletivo”.
Seguindo a linha imaginária que nos leva de Stédile a Al Gore, tudo se associa: crises alimentares, climáticas, financeiras, migratórias, desastres ecológicos, exploração da terra, apagões e etc.
Aí o Agronegócio vira o alvo, em alguns ofensivos parágrafos que posso desconstruir aqui com dois ou três tapas. Diz o texto:

“O Agronegócio que fatura alto e recebe incentivos dos governos pensa menos na comida do povo do que em produzir ração para animais.”

Incentivos do governo? Como por exemplo imobilizar 70% do país em reservas e áreas de preservação? Impostos? Estradas esburacadas? Insegurança jurídica? Se esse é o incentivo imagine se o governo quisesse então nos prejudicar. A comida do povo vem do agronegócio, inclusive o bifinho, o franguinho e a bistequinha. E não se preocupem que produzimos suficiente para o povo e para os animais que o povo vai comer também.

“Por sua vez a pequena agricultura produz a maioria dos alimentos do país.”

Mentira. As estatísticas estão aí e provam. A agricultura familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário é um engodo. Os assentamentos que defendem com unhas e dentes não produzem nem o suficiente para a própria subsistência. Nenhum país sério no mundo tem essa divisão entre agronegócio e agricultura familiar inventada no Brasil. Seja grande, médio, ou pequeno, produtor rural tem que produzir para os outros e viver do que produz.

“O problema migratório cresce, ao moverem-se as camadas populares e povos pobres em direção aos centros.”

Dê uma volta no oeste catarinense ou no interior do Paraná por exemplo. A população fixou-se no campo e vive bem em pequenas propriedades graças ao agronegócio. Pessoas migram para as cidades porque de onde vêm não há empregos, não há hospitais, não há escolas, não há bancos. O agronegócio gera tudo isso onde está presente. O que o interior do Brasil precisa é de mais capitalismo, não menos.

“No fundo está o problema ecológico. Tratamos a terra como objeto de exploração, entregue à ganância dos mais fortes e poderosos à custa da fome de bilhões de pessoas. Mais uma vez reina o desequilíbrio em desfavor dos pobres.”

Em 1950 o mundo produzia cerca de 650 milhões de toneladas de grãos em 600 milhões de hectares. No ano 2000, esse volume era de 1.900 milhões de toneladas em 660 milhões de hectares. Bilhões de pessoas foram salvas da fome graças a esse aumento de produtividade, sem contar que 1.1 bilhão de hectares de terra foram salvos do desmatamento por conta dessa evolução, o que faz de produtores rurais no mundo todo não só grandes salvadores de vidas mas os maiores ecologistas da história.

Essa aparente ignorância da Igreja em relação aos fatos é um mero disfarce para esse ranço marxista que a dominou neste continente desde a década de 60.
Essa Igreja, que hoje me dá vergonha (não de ser católico, mas de meus representantes) não é a Igreja de Cristo, de Pedro e Paulo. É um mero instrumento de proselitismo coletivista.
Neste 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, não custa lembrar o que ela revelou aos pastorinhos portugueses naquele longínquo 1917:

"Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a Comunhão Reparadora nos Primeiros Sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz."

Você, que não é católico não precisa acreditar no milagre de Fátima. Mas quem é católico, e principalmente quem é do clero precisa. Depois de toda a luta do Vaticano, e especialmente de João Paulo II contra o comunismo na Europa, é triste testemunhar a transformação da Igreja católica latino-americana em uma aberração, que em vez de acolher todos os homens como irmãos em Cristo, acredita que a luta de classes entre os homens trará o Reino de Deus para a Terra. A utopia comunista, que espalhou milhões de cadáveres pelo mundo todo veio encontrar seu caminho justamente aqui na Teologia da Libertação.

Friday, May 07, 2010

Tribalismo Indígena


Há 30 anos, o Plinio Corrêa de Oliveira denunciava em sua obra Tribalismo Indígena, o ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI.
Havia então na Igreja Católica no Brasil, e na América Latina em geral a idéia de criar uma Igreja Nova, aggiornata e pós-conciliar, que geraria a Teologia da Libertação e a neomissiologia.
A concepção tradicional das missões na Igreja Católica sempre teve por fim a evangelização de povos indígenas. Evangelizando-os, civilizariam-se. Civilizando-se, estariam mais tentados a praticar o bem. Tenha-se como exemplo Nóbrega e Anchieta.
A neomissiologia por sua vez tem intenções bem diferentes. Para a Nova Igreja, a civilização ocidental é fonte de corrupção, exploração e consumismo.
O índio por sua vez, representa o homem puro. A vida tribal, em comunidades, onde tudo é comum e partilhado, seria a vida ideal para o homem cristão, na verdade o próprio Reino de Deus na Terra. Por esse ponto de vista, não seríamos nós a evangelizar os índios, e sim estes é que teriam coisas a nos ensinar. O objetivo então das novas missões, não é o de levar a palavra de Cristo aos índios, mas preservá-los, a eles e a seu modo de vida de qualquer interferência da sociedade dita civilizada. Para os neomissiologistas, Anchieta e Nóbrega quando fundaram o Colégio que se tornaria São Paulo foram tão nocivos e destruidores quanto os bandeirantes e os conquistadores.
Não cabe aqui explicar como a Nova Igreja enxerga a bondade de Cristo em costumes como canibalismo (praticado amplamente no Brasil pelo "homem puro" antes da chegada dos colonizadores), infanticídio, poligamia, incesto, guerras tribais e genocídios, sacrifícios humanos, magia e paganismo, rituais de dor e outros comuns entre os povos indígenas, além de um falso equilíbrio ecológico e estado de harmonia com a natureza. O fato é que segundo essa concepção, índios não devem ser integrados à sociedade, nós é que teríamos que voltar a viver como índios, pois a sociedade tribal é a utopia cristã perfeita.
Isto está amplamente documentado em textos do Conselho Indigenista Missionário, da Pastoral da Terra e em declarações de membros dessa Nova Igreja.
Com impressionante clareza, Plinio Corrêa de Oliveira previu exatamente onde isto nos levaria. Depois de 30 anos do lançamento de sua denúncia, Nelson Ramos Barretto e Paulo Henrique Chaves acrescentaram um adendo à obra de Plínio, com reportagens sobre as demarcações de reservas indígenas na Raposa Serra do Sol em Roraima, no Mato Grosso do Sul e em Santa Catarina, com todas as incoerências e absurdos desta política de demarcações.
Depois das denúncias de VEJA na semana passada, sobre a farra dos laudos antropológicos, fica claro que estamos dilacerando o território nacional em prol de uma utopia criada pela cabeça de uma dissidência católica comunista, uma aberração que não tem absolutamente nada a ver com a Igreja de Cristo, Pedro e Paulo.

Monday, May 03, 2010

O País esquartejado

Meus pais hoje vivem em Cananéia, uma cidadezinha histórica no litoral sul de São Paulo. Cananéia foi fundada por Martim Afonso de Souza, o primeiro governador geral do Brasil em 1531. É uma das primeiras cidades do país, e um dos marcos iniciais da nossa colonização. Dali saiu a primeira Bandeira feita em terras brasileiras. Os povos indígenas que ali viviam foram assimilados e miscigenados tornaram-se junto com portugueses e negros a semente do povo brasileiro.
Mais de 470 anos após sua fundação, índios começaram a aparecer nas ruas de Cananéia. Vivem em uma Área de Proteção Ambiental, e aparecem na cidade para mendigar e recolher cestas básicas dadas pelo governo. Esses índios, guaranis, foram importados da fronteira argentina e levados até Cananéia. A troco de quê ninguém sabe. Mas sabe-se que há organizações interessadas em demarcar terras indígenas no Vale do Ribeira.
Essa picaretagem acontece hoje em proporções nacionais, e foi denunciada essa semana em uma reportagem da revista Veja, que deve ser lida, relida, divulgada aos quatro ventos, levada ao nossos congressistas, discutida e encarada.
Um relatório da FAO do início deste ano, intitulado The State of Food and Agriculture, estipulou que para alimentar 9.2 bilhões de pessoas (a população mundial esperada para 2050), a produção de alimentos teria que dobrar nos países em desenvolvimento nos próximos anos.
Fornecer alimentos para um mundo em crescimento, e que está tornando-se mais rico, é uma oportunidade de riqueza futura sem precedentes para o Brasil. Como nosso espaço, recursos naturais e a melhor tecnologia e informação em agricultura tropical do mundo, somos capazes de sustentar nosso crescimento e ainda alimentar o resto do mundo.
O agronegócio no entanto é demonizado exatamente por esses setores organizados da sociedade, financiados por fontes obscuras, interessados em esquartejar o território nacional através de uma indústria de demarcações criminosa, enganosa e sem sentido que irá paralisar o desenvolvimento do país e nos roubar esse futuro promissor.
Mais de 2/3 do país estão imobilizados em reservas, terras indígenas e parques. Com as demandas ainda não atendidas, pode-se chegar aos 90% do país, um crime contra nossa economia e nosso futuro.
Quilombolas que nunca foram negros, índios de araque com cocar de carnaval, assentamentos que não produzem nada. É preciso dar um BASTA, e dar passagem ao país que produz.







Thursday, April 22, 2010

Homo vegetarianus


No início da semana, o programa Login da TV Cultura inseriu em sua programação um debate sobre vegetarianismo com a participação da nutricionista Licínia de Campos do SIC (Serviço de Informação da Carne) e George Guimarães, da Sociedade Vegana.
Descontando-se a inépcia dos mediadores que não conseguiram organizar um debate civilizado, e o péssimo hábito do Sr. Guimarães de não deixar outras pessoas falarem, foi possível pinçar alguns seus argumentos que comprovariam a suposta superioridade de sua dieta.
Em primeiro lugar é preciso distinguir as várias nuances de vegetarianismo. Há os que comem peixe e frutos do mar, há os que comem ovos e leite, há os que não admitem o uso de nenhum tipo de alimento de origem animal e há ainda aqueles que só aceitam o que a natureza oferece de bom grado, não o que é tomado dela pelo homem. Lisa Simpson encontrou uma vez um ativista que dizia ser um Vegan Nível 5, que não comia nada que fizesse sombra (I don’t eat anything that casts a shadow). Há aí também uma escalada ideológica implícita até para os próprios vegetarianos que vai dos menos aos mais perfeitos.
O primeiro argumento do vegetarianismo é que comer carne não é natural para o homem. Eu permito-me discordar. Durante o programa, notei que nas inúmeras ocasiões em que não conseguiu manter a boca fechada, mesmo George mostrou em sua arcada dois pares de dentes conhecidos como caninos, especialmente desenhados para estraçalhar carne. O fato de que nós como espécie, George inclusive, tenhamos saído de cima das árvores para evoluir, aumentar nosso cérebro e conquistar o mundo, deriva diretamente, como prova o antropólogo Richard Wrangham de Harvard, do consumo de carne e posteriormente do domínio do fogo e de técnicas de cozimento.
George também nos chama de carniceiros, comparando-nos a hienas e urubus, já que não comemos a carne quente logo depois do abate. Talvez George tenha experimentado carniça, e aí esteja a razão do seu trauma, mas eu sinceramente prefiro carne que tenha passado pelo abate, resfriamento e processamento em frigoríficos habilitados, já que é esta a garantia de que não haverá contaminação microbiológica na carne que estou comendo.
George também sugere que agora que já estamos evoluídos, não precisaríamos mais da carne, como se de repente pudesse surgir uma nova espécie, o homo vegetarianus. Acho que ele precisa de um pouco de perspectiva. Mais de 2 milhões de anos (comendo carne) se passaram para a espécie humana evoluir até aqui. Querer transformar nossa fisiologia no espaço de uma ou duas gerações me parece um pouco precipitado.
O outro grande argumento de George, e o mais apelativo, é o da crueldade. Comer carne é cruel. Meat is murder. O Homo vegetarianus tem essa pretensão de ser um indivíduo moralmente superior ao resto dos mortais. Eu gosto de assistir a National Geographic. Uma vez assisti uma caçada de leões. Um bando de leoas derrubou uma inocente zebra e enquanto uma segurava sua garganta as outras começaram a devorar suas tripas e membros enquanto a pobre zebra ainda berrava. Isso foi cruel. Acho engraçado esse pensamento de que animais na natureza têm uma vida idílica quando não estão sujeitos a crueldade humana.
Conheço várias fazendas e frigoríficos. Posso afirmar sem sombra de dúvida que é do maior interesse de pecuaristas e frigoríficos que os animais tenham no campo a melhor vida possível e sejam abatidos da forma menos estressante possível. Talvez George não acredite que essa gente seja tão boazinha, então é preciso que ele saiba que além dos motivos humanitários há também razões econômicas, já que o animal rende mais e a maturação da carne é melhor.
Eu vou dizer o que acho cruel. Acho cruel por exemplo que crianças, especialmente as mais carentes não possam comer carne e tenham anemia. Uma pesquisa da Dr. Ana Maria Bridi da Universidade Estadual de Londrina mostrou que o consumo de carne está ligado ao desenvolvimento cognitivo de crianças. Carne é fonte de proteínas de alto valor biológico, ômegas 3 e 6, vitaminas A, E e B12, ferro e zinco.
O Homo vegetarianus diz que tudo isso pode ser conseguido por outras fontes. Ah sim, isso é natural, tomar vitaminas e suplementos sintéticos todos os dias. Dizem que há tri-atletas vegetarianos e etc e tal.. Sou capaz de rasgar meu diploma se for na casa de um deles e não encontrar por lá nenhum suplemento ou nenhum desses potes coloridos tipo MegaMass2000 que se encontram em lojas de esporte, e talvez uma injeção ou outra de otras cositas más.
Nos países em desenvolvimento, a cada aumento de renda percebido há um aumento proporcional no consumo de carne. As famílias percebem a importância colocar carne no prato dos filhos.
De fato eu não conheço nenhum vegetariano pobre. Há talvez alguns por fanatismo religioso em certos cantos da Índia, mas pela aparência eles não são exatamente do tipo que “vende saúde”. Pode ser fácil para um Paul McCartney advogar o vegetarianismo do alto de uma fortuna de alguns milhões de dólares, ou para quem pode comer granola e iogurte natural no café da manhã e sushi no almoço. Mas para quem tem fome, carne é ao mesmo tempo necessária e desejada.
Aí vem a carta do meio-ambiente. Claro, a pecuária é devastadora. Vacas poluem mais que carros. Os argumentos vêm de um relatório da FAO de 2007, intitulado The Livestock Long Shadow, ou a Grande Sombra da Pecuária, sobre as emissões de GEE. No início de 2010, depois do prof. Frank Milthoener da UC Davis contestar os dados em um congresso científico, a própria FAO admitiu que a metodologia usada foi falha, e que iria rever o relatório. George também não sabe que os pastos onde as vacas estão absorvem mais carbono do que o que elas emitem.
Além disso fala-se de boi como se ele produzisse só carne, e não uma vasta gama de produtos que vão do couro até biodiesel, medicamentos e produtos de limpeza.
O outro argumento é que a pecuária usa muito mais espaço comparada à agricultura. Bem, eu sou agrônomo e sei que há terras boas para café, outras boas para banana, e outras boas para ... pasto. E nenhuma planta no mundo produz mais massa verde por unidade de área do que gramíneas tropicais. Infelizmente não podemos aproveitar esse potencial, ruminantes podem. E estamos evoluindo no modo de produção. Só no Brasil, entre 1975 e 2007, a produção de carne cresceu 227% para um aumento de área de pastagens de apenas 4%.
Vamos então imaginar que a humanidade passasse a se alimentar de frutas e legumes que a natureza nos oferece. Em 2050 seremos mais de 9 bilhões de pessoas no planeta. Para alimentar essa gente toda com frutas e legumes seria preciso derrubar todas as florestas existentes no planeta. É uma bizarra maneira de defender a natureza.
Não tenho nada contra quem queira ser vegetariano. Pelo contrário, acho que vai sobrar mais carne para mim.
Mas contesto veementemente essa suposta superioridade moral que os vegetarianistas de bandeira na mão alegam ter sobre mim, especialmente porque são baseados em argumentos falsos e equivocados.
Vi outro dia Lidia Guevara, a filha do Che, nua, boina na cabeça, pose de guerrilheira e armada de cenouras em campanha pelo vegetarianismo. Seu pápi, quando mandava na prisão cubana de La Cabaña fuzilava algumas dezenas de cubanos por dia. Sua suposta superioridade moral lhe dava essa liberdade, afinal o que fazia era pelo bem da humanidade.
A contradição moral é a mesma, o PETA por exemplo acha normal sacrificar 97% dos animais que recolhem pelas ruas (www.petakillsanimals.com). Os fins justificam os meios.
O Homo vegetarianus também se considera um ser moralmente superior, e acha que o que faz é pelo bem da humanidade. No extremo deste pensamento estão os ativistas que explodem carrinhos de hambúrgueres. No centro estão pessoas como George Guimarães que acham que devem impor ao resto da humanidade sua visão de mundo.

Friday, March 19, 2010

Testemunho de histórias esquecidas


Eu nasci em Araraquara em 1975, e o que mais me lembra a primeira infância era o cheiro de suco de laranja que o vento trazia da fábrica da Cutrale, ali vizinha ao meu bairro. Mas muitas coisas aconteceram antes disso.
Meus primeiros antepassados paternos pisaram nesta terra há quase quatrocentos anos. Cheguei a encontrar em livros um longínquo x-avô que aqui aportou em 1676, vindo das ilhas dos Açores. Outros vieram depois.
Trouxeram-nos uma nacionalidade, a língua portuguesa e a religião católica. Um ganhou a vida como tropeiro, levando e trazendo burros, mulas e cavalos entre as províncias sulinas e São Paulo. Outros conquistaram terras e viraram grandes fazendeiros de café, em Itu, Santo André, Araras. Algumas dessas terras estão hoje sob o concreto das cidades. A imensa árvore genealógica liga-me diretamente a figuras históricas da República Velha. De tudo aquilo conquistado e depois dividido ou perdido em crises econômicas, batalhas políticas, jogos, negócios e disputas ficaram-me de herança as histórias e o sobrenome.
Minha família materna veio de outro capítulo importante de nossa história. Vindos dos rincões mais pobres e atrasados da Itália, chegaram aqui com uma mão na frente e outra atrás. Há pouco tempo, em uma vila encravada nas montanhas do Cilento, província de Salerno, na Itália, encontrei já velhinha a sobrinha de meu bisavô, que lembrava-se exatamente do dia em que fora despedir-se dele, que embarcava para o Brasil no porto de Nápoles. Aqui progrediu e se instalou em terras de Boa Esperança do Sul, também plantando café. Criou nove filhos. Minhas tias avós contavam histórias de como acordavam de madrugada para espantar ladrões de gado e cavalos da fazenda. Só os três mais velhos se formaram na universidade, porque a crise de 1929 veio, e a prosperidade acabou. Estoques de café sem valor nenhum chegaram a ser queimados nas locomotivas da Estrada de Ferro Araraquara e da Mogiana. Meu avô foi trabalhar no cabo da enxada. Casou-se, e minha avó, uma professora também italiana e de família pobre, mas acostumada com a vida boa da cidade foi para a fazenda onde aprendeu a carnear porco, fazer lingüiça e fritar a carne para ser conservada em barris de banha, já que não havia geladeira. Minha mãe passou a infância na fazenda. Anos depois, voltando de charrete da cidade à fazenda, meu avô contou à minha avó que iria construir uma fábrica de barbantes em sociedade com um imigrante libanês. A fábrica deu certo, minha mãe e todos os meus tios puderam estudar e se formar.Da fábrica de barbantes meus avós compraram um sítio para produzir laranjas. Mais ou menos na mesma época, seu José Cutrale, filho de um siciliano que vendia laranjas no mercado municipal de São Paulo, começou a fazer suco de laranja em Araraquara.
Meu pai, ainda jovem, acompanhava meu tio avô em viagens pelo Mato Grosso do Sul, que ainda era Mato Grosso. Meu tio avô, de Presidente Prudente, comprava gado lá do outro lado do Paranazão, e trazia de comitiva para os frigoríficos ingleses de São Paulo. Era um tempo onde não existia asfalto por ali. Todo mundo andava armado e onças e bandos de veados campeiros cruzavam o caminho nos campos do Bonito.
Meu pai foi estudar agronomia em Piracicaba, na Escola fundada no começo do século por Luiz de Queiroz, um industrial interessado em melhorar a qualidade do algodão que chegava em sua fábrica. Para isso dou sua própria fazenda, a São João da Montanha para fundar a Escola Agrícola. Esse mesmo algodão que Luiz de Queiroz plantava e comprava, meu avô usava para fazer barbantes, vendidos principalmente aos frigoríficos onde meu tio avô vendia bois. Em Piracicaba conheceu minha mãe. Recém formado, em 1971, foi a Alta Floresta, quando Alta Floresta era um acampamento de pau a pique e lona preta. Uma empresa italiana queria plantar café ali, com incentivo e ajuda do governo brasileiro. A mata foi derrubada, 20 mil pés de café e 10 mil pés de cacau foram plantados. Minha mãe não se acostumava com onças rondando a casa.
Foram a Campo Grande, de fusca. Campo Grande era um povoado cheio de imigrantes libaneses, japoneses, armênios e de índios e paraguaios. A cidade tinha algumas ruas de asfalto, e acabava ali na praça do Rádio. O bairro onde morei anos depois era ainda uma capoeira de mato em uma fazenda vizinha. A energia elétrica acabava sempre às sete da noite. Meu pai comprou terras em Bonito também para plantar café. Uma certa manhã o mundo amanheceu branco de geada, uma geada que ficou na memória dos mais velhos. O café e a fazenda acabaram-se, e eles voltaram a Araraquara. Minha mãe teve cinco filhos, e aí no meio eu nasci, sentindo o cheiro da fábrica de suco do seu José Cutrale. Meu pai pós-graduou-se em heveicultura. Em 1980 fomos em um Embraer Bandeirantes a Conceição do Araguaia, no Pará, ode ele produzia mudas de seringueira e gerenciava fazendas. Um de meus irmãos hoje trabalha de engenheiro na Embraer, ajudando a fazer alguns dos melhores aviões do mundo, bem melhores que aquele Bandeirantes (outro irmão trabalha com as maiores indústrias de alimentos do país, um outro constrói estradas e portos para escoar nossa produção). O governo ainda incentivava a derrubada da mata e a colonização da fronteira inóspita. Poucos anos antes índios haviam atacado a cidade matando alguns dos moradores a flechadas. Eram comuns histórias de assassinatos, tiroteios, brigas. Conceição também sofria com apagões e a falta de infra-estrutura. Certa vez um sujeito que havia tido a cara partida por um golpe de facão foi operado com luz de farol de carro no hospital da cidade. E sobreviveu. Mas eu e meus irmãos nos divertíamos pescando no rio, acampando nas praias, brincando nas rodas d’água das fazendas.
Em 1985, eu estava morando em Teresina, no Piauí. A 100km dali, uma grande empresa fazia um imenso projeto de arroz irrigado às margens do Parnaíba. O governo, através do Pró-Várzeas incentivava o aproveitamento do uso racional das várzeas de rios. Era engraçado ver a gauchada importada para implantar o projeto de arroz tomando chimarrão de bombachas a um calor de 40 graus. A fazenda era uma imensidão de milhares de hectares verdes de arroz. Nossa diversão era nadar no imenso canal central de irrigação e pular nos montes de palha do arroz beneficiado. A soja avançava no Cerrado, e no fim daquela década chegaram os primeiros paulistas, vindos de Araraquara, para plantar no sul do Piauí. No vale do São Francisco crescia a fruticultura. Meu pai se apaixonara pela piscicultura, e foi também um pioneiro na criação de camarão da malásia no Brasil.
Fui estudar agronomia também na Esalq. Partilhei casa e comida e amizades com gente dos quatro cantos do Brasil, ricos, pobre, brancos, mulatos, pretos, japoneses, rurais e urbanos, todos apostando que na agropecuária estava o futuro do Brasil.
Eu e um grupo de colegas economizamos por três anos para patrocinar uma viagem destinada a conhecer a agricultura Européia. Andamos por campos, vinhas, criações, fazendas robotizadas, indústrias químicas, fábricas, bancos, universidades e até a sede da FAO, em Roma. Embora o mundo estivesse de olho na China, o Brasil despertava o interesse em todo lugar onde passávamos.
Voltei à Europa em 1999. Trabalhei em uma fazenda francesa, colhendo batata, milho, morangos, feijão. Meus patrões, donos de 60ha viviam de produzir sementes de milho, cânhamo e da feira de legumes do sábado. Estudei na Escola de Agricultura de Angers e com meus colegas franceses fomos a feiras de gados e viajamos por fazendas e frigoríficos irlandeses para uma pesquisa de campo.
Virei estagiário de um frigorífico francês. Depois me ofereceram emprego. No final de 2000, uma vaca louca foi descoberta na linha de abate da minha empresa. Depois disso, a doença que até então estava restrita ao Reino Unido começou a aparecer na Europa toda, provocando uma enorme crise no setor de carnes do continente. Dali fui em 2001 para a Holanda, para trabalhar na importação e distribuição de carne brasileira, que minha intuição dizia, tinha um futuro muito mais promissor. Com o real desvalorizado desde 99, a economia estabilizada desde 94, a Europa fora dos mercados da Rússia e do Oriente Médio e a argentina sufocada por uma política suicida, as exportações brasileiras dispararam. Frigoríficos, todos já nas mãos de brasileiros se profissionalizaram. A velha geração de açougueiros e marreteiros de boi começou a dar lugar à segunda geração de tecnocratas, economistas e audaciosos homens de negócio que abriam ações na bolsa e compravam outras empresas no exterior.
Nossas plantas não ficavam em nada a dever àquelas francesas e irlandesas que eu havia conhecido. Nem tampouco nossas fazendas, imensidões de pasto e espaço comparadas às granjas enlameadas de duas dúzias de vacas multicores dos irlandeses.
Vinte anos depois dos tempos de Sarney e Dílson Funaro, quando tivemos que importar o “Chernobife” russo que ninguém queria, o Brasil era o maior exportador de carne do mundo, e a Rússia nosso maior cliente.
A cada quilo de carne que eu vendia eu pensava estar ajudando a criar um emprego para alguém no Brasil.
Voltei em 2008 com saudades da terra, e fui para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Marquei gado, vacinei, brinquei, toquei boiada, aprendia a olhar a bosta para ver se cada um deles estava comendo bem...
Hoje meu trabalho é tentar descobrir a maneira de conciliar a produção de carne com a preservação ambiental. E nem é tão difícil, temos toda a tecnologia para isso. Podemos dobrar nossa produção de carne sem derrubar nenhuma árvore sequer. Meus antepassados eram tropeiros. Eu dirijo um carro flex-fuel abastecido com o biocombustível mais eficiente do mundo.
Essa é, resumidamente, a minha história. E é uma pequena parte da história de como este país foi construído. Uma história esquecida por um povo que não se lembra sequer do escândalo do mês passado em Brasília. Um povo capaz de mobilizar 80 milhões de pessoas para tirar alguém do Big Brother e incapaz de fazer o mesmo para tirar um corrupto do Congresso.
Vivo do meu trabalho e do meu salário. Durante quatro meses do ano trabalho de graça para um governo que pouco ou nada me dá em troca. Mesmo assim quer determinar o que devo ler, escrever, comer e até pensar. Transforma estudantes em militantes semi-analfabetos a quem chama cidadão consciente. Defende ditadores e assassinos pelo mundo, enquanto se auto-proclamam democratas. E mesmo com tanto autoritarismo é um governo incapaz de manter a lei e a ordem tanto nas fronteiras como no coração das maiores cidades do país. O sul do Pará ainda hoje é um faroeste caboclo.
Minha religião, berço da democracia e do senso moral deste hemisfério está sob ataque, acusada de intolerância. Em nome dessa suposta “tolerância”, pretende-se que seus símbolos sejam arrancados de todo e qualquer lugar público. Essa mesma “tolerância” exige que eu aceite como normais qualquer tipo de comportamento moral e sexual. Nosso próprio governo dá cartilhas de sexo, camisinhas e pílulas às nossas crianças achando que assim os educa melhor do que os pais.
Não sou rico e nem latifundiário. Mas sou rotulado como parte da “elite branca” responsável por todos os males do país. Se eu sou assaltado, dizem que a culpa é mais minha, por ter um relógio, do que daquele que me assaltou. Responsabilidade e livre arbítrio não existem mais.
Por quê isso tudo? Devo me envergonhar de alguma parte da minha história? Será que é porque acredito, como Lincoln, que a propriedade é o fruto do trabalho de um homem, é seu direito, e é a base de uma sociedade democrática? Certos setores da sociedade acham perfeitamente normal por exemplo que a propriedade da Cutrale seja depredada e saqueada pelo MST. E pensam ser desejável que de agora em diante o direito de propriedade seja apenas relativo.
Nos dividem em brancos, pretos, índios depois de cinco séculos de miscigenação sob que propósito? Criar alguns cidadãos “mais iguais” perante a lei do que os outros?
Meu pai, aos 65 anos queria começar uma criação de camarões. Hoje, a promissora criação de camarão brasileira foi praticamente exterminada pelo ambientalismo militante. Espero que meu pai ainda não acabe seus dias na cadeia por insistir nisso. Ele que desmatou e plantou em várzea de rio hoje certamente mereceria prisão perpétua.
Meu filho vai nascer em junho. Estou feliz porque é tempo de festa junina, de comemorar a colheita na roça. Ao mesmo tempo não sei em que tipo de país ele vai viver. Nesse momento, como feto, a vida dele para alguns vale menos do que a de um mico-leão ou ovos de tartaruga.
Eu esperava, ainda espero, que ele possa desfrutar dessa imensa promessa de riqueza futura que é o agronegócio brasileiro, e vou gastar todas as minhas forças, toda a minha energia, a última gota de saliva e a última tinta no papel para que assim seja.
Minha vida e minha história sempre estiveram de uma forma ou outra ligada à agricultura, como esteve a história desse país. Hoje, adolescentes de 15 a 60 anos de coletinho e bolsa a tiracolo querem apagar nossa história, reescrever o passado, ditar o presente e nos roubar o futuro. Querem nos transformar em criminosos e vigaristas. Mas mantenho a esperança de que democraticamente iremos vencer essa tentação totalitarista que nos assombra por detrás de boas intenções.
Tenhamos fé.

Thursday, March 11, 2010

Exterminadores do Futuro


A bancada ambientalista do Congresso lançou ontem uma ofensiva para impedir alterações substanciais exigidas por parlamentares ruralistas no Código Florestal Brasileiro. Às vésperas da campanha eleitoral, a estratégia é radicalizar o discurso em defesa da atual legislação para constranger os ruralistas.
Auxiliados pela ONG Fundação SOS Mata Atlântica, a Frente Ambientalista decidiu "divulgar" uma lista dos principais defensores da mudança da legislação ambiental. Batizada de "Exterminadores do Futuro", a campanha identificará quais são os deputados e senadores mais engajados no afrouxamento das regras ambientais. "A gente tem que constrangê-los. Eles têm que assumir a responsabilidade por suas opções", diz o coordenador da Frente Ambientalista, deputado Sarney Filho (PV-MA), também conhecido como Zequinha Sarney. "Temos que usar nossas armas".

A matéria é de Mauro Zanatta, publicada no Valor Econômico

Agora pense nisso:

- Em 2007, a população urbana do planeta ultrapassou a população rural.
- Em 2009, segundo a FAO, cerca de um bilhão de pessoas estavam vivendo em algum grau de subnutrição. Ainda segundo a FAO, a produção de alimentos nos países em desenvolvimento deverá dobrar nos próximos anos para atender a essa demanda.
- Em 2014, segundo o FMI, o PIB dos países em desenvolvimento reunidos ultrapassará o PIB dos países desenvolvidos.
- Em 2050, segundo a ONU, a população mundial será de mais de 9,2 bilhões de pessoas.
Nós temos um mundo em crescimento, cuja renda está aumentando e que está precisando desesperadamente de alimentos. A agricultura no Brasil ocupa 7,5% da superfície do país. Mesmo assim somos dos maiores exportadores do mundo de carnes, soja, café, açúcar, suco de laranja e vários outros produtos agrícolas. O agronegócio representa hoje um terço do PIB, dos empregos e da exportação do Brasil e é a maior promessa de riqueza para o futuro deste país.
O eco-xiismo quer criminalizar esta atividade. Julga-a responsável por todos os males ambientais do país. Não reconhece o fato de que o aumento da produtividade agrícola no mundo nos últimos 50 anos fez com que mais de um bilhão de hectares de biomas nativos no mundo todo fossem preservados. Acredita que preservação e produção são antagônicos, e não complementares. Em nome desse preconceito boçal quer negar ao país a chance de crescer.
Eu pergunto agora: quem são os verdadeiros exterminadores do futuro?

Ives Gandra e o PNDH3


Vão pra Cuba que os pariu...

Monday, February 01, 2010

Boi Pirata


Como funciona na prática o Boi Pirata do Minc, mais uma estupidez bolivariana petista.
Clique aqui e assista na BAND.

Thursday, January 21, 2010

Abra os olhos


Imagine-se um hipotético indivíduo que doravante chamaremos de Sr. Oliveira.
O Sr. Oliveira é um homem comum. É um pai de família. Habita uma região metropolitana que poderia ser São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte ou Recife ou alguma outra grande cidade. Tem um emprego em uma instituição financeira, ou em uma revendedora de peças por exemplo. Pertence àquela classe média ligeira, que além de trabalhar 4 meses por ano de graça para o governo esforça-se para pagar as contas de aluguel, escola, natação e inglês dos filhos, plano de saúde, o guarda da rua e outros pormenores no fim do mês.
O Sr. Oliveira levanta-se de manhã e veste-se com roupas de algodão, algodão esse crescido nos campos de Chapadão do Sul, MS e processado em Blumenau, SC. Talvez esteja um pouco frio, e ele use um pulôver de lã de carneiros criados em Pelotas, RS e fabricado em Americana, SP. Calça seus sapatos de couro vindo de bois do Mato Grosso, e fabricados em Novo Hamburgo, RS.
Ele toma café da manhã, com ovos vindos de Bastos, SP, leite de uma cooperativa do Rio de Janeiro, broa de milho colhido em Londrina, PR, um mamão vindo do Espírito Santo, suco de laranja de Araraquara, SP e um cafezinho vindo direto de São Lourenço, MG.
Ele lê um jornal, impresso em papel feito de eucalipto crescido em Três Lagoas, MS.
O Sr. Oliveira entra em seu carro, abastecido com álcool de cana de açúcar produzida em Piracicaba, SP, com pneus de borracha saída dos seringais de São José do Rio Preto, SP.
Enquanto ele vai ao trabalho, a Sra. Oliveira vai às compras nos supermercados do bairro, sempre pesquisando os melhores preços das frutas, das verduras e da carne para não apertar o orçamento familiar.
No almoço, o Sr. Oliveira come um filé de frango criado no Paraná, alimentado com soja de Goiás e milho do Mato Grosso, com molho de tomate de Goiás. Tem arroz do Rio Grande do Sul, feijão dos pivôs do oeste baiano. Tem salada das hortas de Mogi das Cruzes, SP. Suco de uvas do Vale do São Francisco e de sobremesa goiabada feita com goiabas de Valinhos, SP e açúcar de Ribeirão Preto, SP, e queijo de Uberlândia, MG. Outro cafezinho dessa vez da Bahia.
Hoje a noite é de comemoração. Sua empresa fez um corte de pessoal mas felizmente o Sr. Oliveira manteve o emprego. Ele leva a esposa jantar fora. Vinho do Vale dos Vinhedos gaúcho. Presuntos e frios de porco criado em Santa Catarina, alimentado com soja paranaense, filet mignon de bois criados no Sul do Pará. Chocolate produzido com cacau do sul da Bahia. E outro café de Minas, adoçado com açúcar pernambucano.
O Sr. Oliveira é um homem razoavelmente informado e inteligente. No dia seguinte ele lerá os jornais novamente. Pelos jornais ele ficará sabendo que há conflitos em terras indígenas recentemente demarcadas e fazendeiros cujas famílias foram incentivadas a ocupar aquelas terras há décadas atrás. Pelos jornais ele ficará sabendo que a pecuária é a maior poluidora do país (embora ele mesmo tenha o sonho de um dia abandonar a cidade poluída e viver no campo por uma qualidade de vida melhor). Pelos jornais ele tem notícias de invasões de terras, de conflitos agrários, de saques e estradas bloqueadas (o Sr. Oliveira é a favor da reforma agrária, embora repudie a violência). Pelos jornais ele toma conhecimento de ações do Ministério Público contra empresas do agronegócio (ele não entende que mal há em empresas que ganham dinheiro). Pelos jornais ele acha que a Amazônia está sendo desmatada por plantadores de soja e criadores de boi.
Mas o Sr. Oliveira pensa que isso não tem nada a ver com ele.
Pois eu gostaria de agarrá-lo pela orelha, e gritar bem alto, de megafone talvez, não um, nem dez, mas mil megafones que TUDO ISSO É PROBLEMA DELE SIM!
Gostaria de lhe dizer que a agropecuária está presente em todos os dias da vida dele.
Gostaria de lhe dizer que o agronegócio gera um terço do PIB e dos empregos do país. Gostaria de lhe dizer que quem diz que a pecuária polui mente descaradamente.
Gostaria de lhe dizer que o maior desmatador da Amazônia é o INCRA, que com o dinheiro dos impostos dele sustenta assentamentos que não produzem absolutamente nada, condenando uma multidão de miseráveis manipulados por canalhas balizados por uma ideologia assassina à eterna assistência do Estado.
Gostaria de lhe dizer que estes mesmos canalhas estão tentando, sob a palatável desculpa dos direitos humanos, acabar com o direito de propriedade, arruinando qualquer futuro para o agronegócio brasileiro.
Gostaria de lhe dizer, que os mesmos canalhas querem fechar índios que há 5 séculos estão em contato com brancos em gigantescos zoológicos onde eles estarão condenados à miséria e ao suicídio.
Gostaria de lhe dizer que índios são 0,5% da população brasileira e não obstante são donos de 13% do país.
Gostaria de lhe dizer que querem transformar 2/3 do país em reservas e parque que estão sendo demarcados sobre importantes reservas minerais e aqüíferos subterrâneos essenciais para o futuro do país.
Gostaria de lhe dizer que a agricultura ocupa apenas 7,5% da superfície do país, e que mesmo assim somos os maiores exportadores do mundo de carne, soja, café, açúcar, suco de laranja e inúmeros outros produtos.
Gostaria de lhe dizer que podemos dobrar ou triplicar a produção pecuária do país sem derrubar uma árvore sequer.
Gostaria de lhe dizer que produtores rurais não são a espécie arrogante e retrógrada que os canalhas dizem que são. São gente que está vivendo em lugares onde você não se animaria a viver, transitando por estradas intransitáveis e mortais, acordando nas madrugadas para ver nascer um animal, rezando para chover na hora de plantar e para parar de chover na hora de colher, com um contato e um conhecimento da natureza muito maior do que o seu. São gente cujos antepassados foram enviados às fronteiras desse país para garantir que esse território fosse nosso, foi gente incentivada a abrir a mata, abrir estradas, plantar e colher, às vezes por causa do governo, às vezes apesar dele.
Gostaria enfim de gritar a plenos pulmões, que qualquer problema que afete um produtor rural, uma empresa rural, uma agroindústria É UM PROBLEMA DELE, DO PAÍS E DO MUNDO.
Sim, porque no mesmo jornal que o Sr. Oliveira leu, há uma nota de rodapé que diz que há 1 bilhão de pessoas no mundo passando fome.
E grito finalmente para o Sr. Oliveira e tantos outros iguais a ele: ABRA OS OLHOS! e desconfie daqueles que querem transformar o agronegócio em uma atividade criminosa.

Tuesday, January 12, 2010

Kátia Abreu, lição de verdade


HÁ MUITAS maneiras de impedir que o cidadão recorra à Justiça para defender seus direitos. Uma delas, que os brasileiros conhecem bem, foi ensinada aos militares pelo jurista Chico Campos em abril de 1964: consiste em, pura e simplesmente, decretar que é vedada à Justiça apreciar os atos em que o governo ditatorial alegar estar exercendo poderes revolucionários. Agora, estamos diante de uma nova conspiração. Trata-se da ameaça explícita do governo de criar versão própria da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948.
Um pretexto para estabelecer atalhos e criar entraves ao reconhecimento até de direitos humanos consagrados, como a propriedade e a liberdade de imprensa, que, de princípios indiscutíveis, passam a depender de instâncias administrativas ou sindicais, antes que a Justiça possa reconhecê-los ou preservá-los. A propriedade privada, um dos 17 artigos da primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa, de 1789, perderá a proteção da Justiça brasileira se persistir a versão do decreto.
Outra medida inédita prevê um ranking, dominado por grupos sindicais e administrativos, para avaliar se os órgãos de comunicação podem receber propaganda ou patrocínios, numa confissão tácita de que a distribuição de verbas publicitárias oficiais não é feita por critérios técnicos em que se avaliam a eficácia dos veículos.
Assim, não avançamos. Democracia é privilégio de sociedades desenvolvidas que compreendem o valor da tolerância, a importância dos direitos humanos e a necessidade de respeitar o princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei.
E, no Brasil, justiça, democracia e direitos humanos são valores consensuais. Tanto que, sob o comando do ex-ministro da Justiça José Gregori, nosso país conquistou prêmio internacional, concedido pela ONU, por ter feito, de forma competente, a implantação, em 1996, de um consistente programa nacional de direitos humanos. Em 2002, o segundo programa deu continuidade aos avanços, reconhecidos internacionalmente.
No novo Programa Nacional dos Direitos Humanos, PNDH-3, o desenho é outro: saem a democracia, a justiça, a tolerância e o consenso e entra a velha visão esquerdista e ideológica que a humanidade enterrou sem lágrimas nas últimas décadas, depois de muito sofrimento e muita miséria.
Direitos humanos, na forma aprovada pelo decreto 7.037, parece ser apenas a máscara benigna e traiçoeira que oculta a face terrível dos demônios que grupos radicais e sectários se recusam a sepultar.
Aproveitando-se do sucesso da economia capitalista e globalizada do Brasil, para o que em nada contribuíram as ideias, os valores e a visão do mundo de setores radicais do PT e dos movimentos que o sustentam, atiram aos brasileiros essa plataforma totalitária. Com que propósito?
Duas ideias me ocorrem: uma possível "satisfação", em fim de governo, a velhos aliados da esquerda ideológica ou então, e seria mais grave, uma tentativa de envenenar e dividir a sociedade brasileira com um debate (esquerda revolucionária x democracia) que, no resto do mundo desenvolvido, é coisa do passado, assunto de museus ou de faculdades de história.
O documento, cuja íntegra tem mais de 80 páginas, contém equívocos inaceitáveis. Ali, o agronegócio é considerado instituição suspeita e desprezível. Tanto que até liminares, um dos instrumentos jurídicos mais essenciais no caso de invasões de terra por terem efeito imediato, só poderão ser concedidas depois de realizados procedimentos administrativos e "conciliatórios". Não há prazos previstos aqui, e os procedimentos poderão ser tão numerosos que tornarão inócuas as providências de urgência reclamadas quando há desrespeito ao direito de propriedade.
Cumpre lembrar, a propósito, que o acesso à Justiça com a devida celeridade é um dos direitos humanos garantidos na Constituição a todos nós, brasileiros e brasileiras.
Dificultar a reintegração de posse é estimular invasões de terra. Não podemos esquecer, igualmente, que os procedimentos "conciliatórios" e burocráticos estariam à mercê de integrantes do MST, que hoje controla, acintosamente, postos de comando no Incra e no Ministério do Desenvolvimento Agrário. A Justiça não pode, em nenhuma circunstância, ser refém de burocracia alguma.
Não é por acaso que só as questões específicas que reafirmam os artigos da Declaração dos Direitos Humanos da ONU, que são parcela mínima no texto, merecem apoio. Os demais pontos não passam de uma tentativa típica de camuflar delírios de dominação autoritária com aparentes manifestações democráticas.

* KÁTIA ABREU é senadora da República pelo DEM-TO e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Artigo publicado no Jornal Folha de S. Paulo de 12/01/2010.

Friday, December 18, 2009

A Revolução Verde


Antoine Lavoisier foi guilhotinado pelos revolucionários franceses. Mais de duzentos anos depois sua lei mais famosa: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, está sendo guilhotinada pelos modernos revolucionários da ecologia.
Digo isso baseado na quantidade de bobagens que andam sendo ditas por aí, especialmente sobre o agronegócio brasileiro e suas emissões de gases de efeito estufa.
Bois e vacas por exemplo são considerados por ecologistas como verdadeiras fábricas de emissão de metano, como se aquelas moléculas de carbono não estivessem já presentes na atmosfera, não fossem absorvidas pelos pastos, seqüestradas em forma de matéria orgânica no solo, transformadas em carne, couro, gelatina, sabão e biodiesel.
Recomenda-se reduzir o consumo de carne para salvar o planeta. Pode ser confortável para Paul McCartney advogar o vegetarianismo do alto da sua fortuna de 440 milhões de libras esterlinas, mas segundo a FAO existe 1 bilhão de pessoas em algum estado de subnutrição no planeta que gostariam muito de ter um mínimo de proteína em suas dietas.
O programa Canal Livre da Band que foi ao ar 13/12 (vídeos disponíveis no site da Band) mostra, pela perspectiva de especialistas como o meteorologista Luiz Carlos Molion, Evaristo Miranda da Embrapa e o Prof. Cerri do CENA, quão equivocada está a visão que o ambientalismo tem do agronegócio.
O etanol queimado nos carros por exemplo é contado como emissão de CO2, embora este CO2 seja absorvido pela cana quando cresce neutralizando as emissões e até seqüestrando carbono quando o corte é mecanizado e a palha das folhas é incorporada ao solo.
Nosso ex-ministro Alysson Paulinelli em recente artigo no Estadão chama de mentira “gobbeliana” a questão de emissões por queimadas, já que o CO2 liberado ali tinha sido absorvido pelas árvores crescendo, mesmo que isso tenha acontecido há séculos atrás. (A propósito, fala-se de CO2 como se fosse um poluente, embora eu, você e toda natureza viva sejamos todos feitos de CO2).
A grande verdade é que o único estoque de carbono sendo efetivamente liberado para a atmosfera vem da queima de combustíveis fósseis: petróleo, gás, carvão e turfa que são imensos estoques de carbono seqüestrados há milhões de anos atrás.
É na busca de energias alternativas que cientistas deveriam focar seus esforços, e nesse sentido o Brasil é realmente um país abençoado por contar com uma matriz energética baseada em hidrelétricas e com a possibilidade de expandir o uso de biocombustíveis, com a cultura da cana para produção de etanol e de eletricidade com a queima do bagaço, e outras alternativas como o sebo do boi por exemplo.
Enquanto energias alternativas não resolvem o problema, toda a discussão em Copenhague gira em torno de países que querem queimar mais para se desenvolver e de países que se recusam a parar de queimar para não mudarem seu estilo de vida. Países em desenvolvimento culpam os desenvolvidos por terem poluído o mundo, mas não contam que aquela poluição gerou benefícios e tecnologias que mudaram a vida de grande parte da humanidade.
O ninguém percebe é que tanto um grupo como o outro são pautados pelo peso na consciência que o ambientalismo lhes impõe. Um ambientalismo que baseia-se em fraudes e modelos equivocados para impor ao mundo um ponto de vista.
Olavo de Carvalho diz que o que define um movimento revolucionário totalitarista é o senso de história invertido sob o qual ele interpreta a realidade. O III Reich nazista ou o paraíso proletário comunista são fins definidos em nome dos quais tudo é permitido.
Por definição, nada do que o revolucionário faça no presente é imoral já que o fim futuro supostamente é o ideal que se imagina para a humanidade.
Pascal Bernardin, autor de O Império Ecológico, talvez seja quem mais tenha captado o espírito revolucionário do ambientalismo. Na verdade ele liga o comunismo e seu fim ao surgimento do novo ambientalismo.
O movimento já tem seu horizonte utópico definido, quer colocar a Natureza de volta ao centro da espiritualidade humana. O indivíduo mais uma vez cederá lugar ao bem coletivo. Para atingir esse horizonte empenha-se em destruir a percepção cristã que temos do homem no Ocidente, transformando-o apenas em uma parte inconsciente do todo, como se fôssemos uma colônia de cupins. Há setores do ambientalismo por exemplo que dizem que a melhor solução para a humanidade é parar de se reproduzir. Estão entre os ambientalistas, e não por acaso, os mesmos que defendem procedimentos como aborto e eutanásia.
A ideologia do ambientalismo infiltrou-se de maneira gramsciana em todos os setores da sociedade, partindo sempre de onde a infiltração é mais eficiente: o show business e o sistema de ensino. No caso de não aderirmos ao movimento, somos ameaçados com todo tipo de catástrofes. As mudanças climáticas provocadas pelo homem (ergo o homem em si) são culpadas de inundações (exceto em São Paulo onde a culpa é do Kassab), secas, nevascas, furacões, desertificações, frio, calor, ventos e praticamente toda e qualquer alteração climática mais midiática.
Entre outros efeitos dizem por exemplo que o aquecimento provocará epidemias de malária em lugares onde a doença não existe. Seria bom lembrarmos que a maior epidemia de malária já registrada aconteceu na Sibéria. Cidades como Boston e Londres erradicaram a malária graças ao uso massivo de DDT, molécula que o ambientalismo baniu sem que nunca uma única morte humana fosse relacionada com seu uso. Por outro lado, o fim do DDT provocou um genocídio silencioso (em contraponto à Primavera Silenciosa de Rachel Carlson) de vítimas de malária no Terceiro Mundo.
É engraçado ver como Hollywood dá vazão ao pensamento revolucionário ambientalista em suas produções catastróficas. O lado mau é sempre o do desenvolvimento. Em O Dia Depois de Amanhã, milhares de norte-americanos cruzam a fronteira rumo ao México fugindo de uma nova era do gelo. Em 2012, depois que a crosta terrestre se esfacela em pedaços, só sobra África para se tornar o novo mundo dos sobreviventes. Em Avatar, a recente mega produção de James Cameron, humanos maus querem explorar um planeta selvagem onde seus habitantes vivem em harmonia com a natureza.
Nas escolas, nossos filhos voltam para casa sem saber resolver uma equação ou apontar o Everest no mapa, mas sabem perfeitamente lhe dar uma homérica bronca por fumar um cigarro ou demorar demais no banho.
A invasão dos computadores de East Anglia mostrou ao mundo que mesmo as instituições científicas que deveriam ser nossas balizas estão contaminadas pelo espírito revolucionário. Afinal o que é uma fraude em alguns dados aqui se o futuro que pretendemos é o melhor para a humanidade?
Onde estará o fim disso tudo?
Estaríamos mesmo a caminho de um eco-fascismo, que pretende colocar sob uma autoridade global o nosso acesso a recursos naturais, incluindo terra, água e combustíveis?
Será nosso futuro habitar em eco-goulags, onde nosso consumo de energia, água e nossas emissões são controladas como Chávez controla as idas ao banheiro dos venezuelanos?
Há uns meses atrás, quando os ambientalistas invadiram as ruas das grandes cidades à noite pedindo que luzes fosse apagadas e eletrodomésticos desligados pelo bem do planeta, recebi um email de um funcionário de uma dessas ONGs nos EUA. O email trazia uma foto de satélite da península da Coréia à noite. A Coréia do Sul estava inteira iluminada, a do Norte imersa em escuridão. A mensagem perguntava e afirmava: "Adivinhe qual das duas Coréias é uma ditadura stalinista e qual é uma democracia? Eletricidade é bom!". Aposto que provavelmente ele perdeu o emprego depois dessa.
Uma outra campanha que a ONG SOS Mata Atlântica começou a divulgar pedia que as pessoas começassem a urinar durante o banho para economizar água de descarga. Minha mãe passou anos recomendado exatamente o contrário para que o banheiro de casa não exalasse como um mictório de rodoviária. Em outra campanha o Greenpeace já andou pedindo o fim do papel higiênico.
Vamos mesmo abandonar as conquistas da civilização? Ou pior, vamos mesmo tirar o homem do centro de nossas atenções e preocupações? Como disse Luiz Felipe Pondé, damos direitos aos ratos enquanto fazemos de bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais. Ou como perguntou Reinaldo Azevedo, não podemos conceder aos fetos os mesmos direitos dos ovos de tartaruga?
Eu tinha uma visão diferente de futuro. Onde a vida de indivíduos não fosse sacrificável pelo bem coletivo da espécie. Onde Brasil seria o celeiro do mundo, capaz de alimentar as 9 bilhões de pessoas que teremos no planeta daqui a quarenta anos. E onde a agricultura fosse a futura fonte da nossa prosperidade. Qual será a nossa escolha? De volta às selvas, comendo nos uns aos outros?

Thursday, December 17, 2009

Bobagens em Copenhague


Copenhague virou um circo de horrores. O que tem de bobagem sendo dita inclusive por brasileiros, e contra brasileiros por lá é impressionante.
O link abaixo é para o programa Canal Livre da Band. No domingo passado, gente que realmente sabe o que diz estava lá comentando o tamanho da inépcia brasileira em se defender especialmente dos ataques dirigidos ao nosso agronegócio. Só cego não vê que o que está em jogo não é nada ambiental, e sim político e econômico. Vamos sair dali com nosso desenvolvimento comprometido.
Temos tecnologia de sobra na agricultura e na pecuária para mitigar qualquer possível dano ambiental. Como diz o Joelmir Beting botamos o ovo mas não sabemos cacarejar... O problema não está e nunca esteve no agronegócio. Dizer o contrário só interessa à nossa concorrência.
Assistam, vejam principalmente o que diz o Luiz Carlos Molion, o Evaristo Miranda da Embrapa e o Prof. Cerri, e então reflitam.

Wednesday, October 28, 2009

Política no campo


Um pré-candidato a deputado federal veio pedir apoio político a uma amiga, produtora rural. Que me pediu conselhos para condicionar o seu apoio.
Aí vão algumas coisinhas que um político deve saber para defender o homem do campo
:

Não pode existir uma diferença entre agricultura familiar e agronegócio. O que existe é um só setor e uma só classe, a de produtores rurais, divididos em grandes médios e pequenos;

Este setor é responsável por umterço do PIB e dos empregos do país. Quando se luta pelos interesses do campo não se está defendendo "os fazendeiros", os "ruralistas", está se defendendo o interesse e a economia do Brasil;

Um produtor que sustenta sua família com agricultura pratica agricultura familiar, não interessando se ele é grande, médio ou pequeno. Como existem indústrias e comércios familiares, que vão da quitanda do japonês da esquina até a rede Pão de Açúcar dos Diniz, a Votorantim do Ermírio de Moraes, a siderurgia dos Gerdau e etc. Existem agricultores familiares que trabalham com tabaco no RS, com suinocultura em SC, com fruticultura no vale do São Francisco, e com pecuária no MS, em GO, ou em MG. O importante é que a renda gerada por aquela propriedade sustente dignamente uma família, e se possível gere renda a outras famílias também;

É mentira que o agronegócio gere concentração fundiária e desemprego por exemplo. No último censo agropecuário do Estado de São Paulo, que tem a agricultura mais tecnificada do país, verificou-se que o tamanho médio das propriedades diminuiu. E isso com toda aquela cana, laranja e reflorestamentos. Os empregos que são eliminados no campo com a monocultura e a tecnificação são criados nas cidades com a instalação de agroindústrias de suco, de papel e celulose, de usinas, de laticínios, de frigoríficos e etc;

Quanto menor a propriedade obviamente mais necessário se faz o uso da técnica agronômica e zootécnica para um bom desempenho de produtividade, e maior precisa ser a capacidade de organização na hora de conseguir crédito, na compra de insumos e na comercialização de produtos. Isso pode ser alcançado por exemplo com o cooperativismo (como alguém com 20ha pode ter um trator por exemplo sem inviabilizar financeiramente a propriedade?). É nessa hora que o estado deve desempenhar sua função através dos programas de extensão rural;

A agricultura familiar no entendimento do atual governo e do programa de reforma agrária no entanto é incapaz de gerar renda, o que a recente pesquisa da CNA comprova. Pela pesquisa da CNA, 46% dos beneficiados com o Programa da Reforma Agrária já vendeu suas terras (o que é ilegal diga-se de passagem), 37% não produz rigorosamente nada, 10% não produzem o suficiente nem para a família e 24% produzem o suficiente só para a família. Ou seja, em vez de gerar um benefício para a comunidade e para a economia do país, gera-se um gasto extra que em vez de dar independência econômica a uma família cria uma legião de estado-dependentes, gente que para viver precisa de auxílio contínuo do Estado;

É preciso entender que o setor da agropecuária é um setor da economia igual aos outros, como é a indústria, como é o comércio. Os índices de produtividade que visam a desapropriação de imóveis rurais são uma obscenidade ideológica. Imaginem por exemplo que seja proposto um índice de produtividade para a indústria de calçados. A que não produzir um determinado número de pares de calçado por ano poderá ser desapropriada e destinada as militantes do Movimento dos Sem-Indústria. A idéia é tão absurda que ninguém nunca cogitou implantar uma coisa dessas. E no campo no entanto essa idéia perdura, com um atraso de uns 200 anos pois é do tempo em que a terra era a única fonte de geração de riquezas;

A revisão dos índices de produtividade vai servir só como ferramenta para que um movimento criminoso como o MST ganhe passe livre para invadir onde bem entender.
Por mais que uma fazenda seja mal cuidada ou que produza muito pouco, o dono dela emprega pelo menos duas ou três pessoas. Tem um filho em escola particular na cidade, usa uma Unimed, gera um excedente que mesmo pequeno vai gerar ICMS para o município. Se nessa fazenda faz-se um assentamento de reforma agrária, além de não gerar mais nada vai dar prejuízo em forma de bolsa-família, cesta básica, transporte grátis e ainda demanda a instalação de redes delétricas, de água e esgoto em zonas rurais quando nem nas cidades estes serviços estão disponíveis a toda a população urbana. Nesse sentido, a reforma agrária deve ser feita em terras realmente improdutivas, que devem ser dadas não a assentados mas vendidas a pessoas com vocação agrícola por programas que facilitem o acesso à terra;

Em resumo, o papel do Estado no campo:
- facilitar o acesso a terra a quem realmente tem vocação agrícola
- extinguir os índices de produtividade para o setor agrícola
- incentivar programas de extensão rural que viabilizem a pequena propriedade
- incentivar a agroindústria
- melhorar a infraestrutura em núcleos urbanos do interior, diminuindo o inchaço das grandes capitais