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Primeiro porque fui buscar no correio dois presentes que a minha mãe, ciosa da minha evolução cultural, me mandou do Brasil. Uma Antologia do Pasquim dos 150 primeiros números e a edição de maio da Primeira Leitura com a entrevista de Contardo Calligaris, o que me fez especialmente ter encomendado a revista.
Fui às compras sim, e comprei dois CD’s que sempre quis ter e por algum motivo que me escapa até hoje não tinha comprado: Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles e o Buena Vista Social Club.
Passei a tarde saboreando meu livro e minha revista, tomando meu café, um branco italiano de Villa Rocca e ouvindo meus discos novos. E ainda olhando de esgueio Portugal e Irã na TV, obviamente sem som.
Resolvi agradar minha esposa que estava em seu ensaio de balé para descontar meu mau humor da manhã e fui reunir o que estava de bom na minha despensa para um lanche. Copa de Parma, jamón serrano, salami, queijo Gouda, melão espanhol, e, gran-finale: foie gras francês. Tudo acompanhado por uma garrafa de Lersch espumante que touxemos da Alemanha. E depois ainda fomos ver Jennifer Aniston no cinema em The Break-up.
Voltei para casa a tempo de ver um documentário na BBC sobre a polícia anti-sequestro no Brasil, com destaque para o caso da mãe do Robinho. Entrevistas com o delegado gente boa que toca bossa nova no violão depois do expediente e com o Célio Marcelo da Silva, o “Bin Laden”, que aparece como um dos sequestradores mais perigosos do país.
Conclusões do dia:
1. Uma boa música e um bom livro melhoram o dia de qualquer um. Felizmente cheguei em uma fase da vida em que comprar um CD não arromba mais o meu orçamento da semana.
2. Boa comida também. Bom vinho idem. E é uma vantagem morar na Europa e ter tudo pertinho assim.
3. Futebol ruim melhora muito se assistido mudo. Especialmente se a narração é em holandês.
4. Não importa o que digam os defensores de diretos animais e outros eco-chatos, vou continuar sendo amante de foie gras, carnes em geral e touradas. Algum dia desses ainda explicarei porquê, mas simplesmente não aceito que me ditem o que devo por na boca ou não, especialmente se eles se consideram moralmente acima do resto da humanidade.
5. Jennifer Aniston está melhor ainda separada de Brad Pitt. Não importa o papel que ela faz, cada vez que a vejo na tela só dá vontade de entrar lá e pedir deixa eu ser seu Friend.
6. Não interessa o quanto foi bom o seu dia, há sempre desgraças acontecendo que te lembram do que a humanidade é capaz.
7. Eu devereia me sentir culpado por comer foie gras enquanto no Brasil um miserável sequestra alguém a cada minuto?
Volto a Contardo Calligaris e à principal conclusão da entrevista, que aconselho todos a ler. O indivíduo é no fundo o responsável por impedir o horror. Todos temos livre arbítrio e subjetividade para julgarmos e agirmos em cada momento de nossas vidas. Cada pessoa tem a capacidade de decidir pelos próprios atos. O sequestrador que não teve uma infância feliz, a mãe que joga o filho na lagoa porque acha que é oprimida, o político que assalta o país porque acha que seu partido tem uma boa causa, a filha que mata os pais por causa do namorado, o militante que depreda o palácio e fere um segurança porque acha que tem razão, todos esses deixaram de pensar por conta própria para agir por uma razão que lhes escapa ao controle. Mentira. Todos temos o poder de escolher. Mas é mais difícil exercê-lo e nos tornarmos responsáveis por nossos atos do que delegar nossas ações a uma causa, uma ideologia, a algum problema psicológico lido em revistas femininas.
O horror que presenciamos todos os dias no Brasil e no mundo, guerras, corrupção, crime, tudo isso não acontece por inevitável, acontece porque pessoas recusam-se a entender que um mundo melhor depende da ação do indivíduo, e não de uma causa coletiva.
Porque eu deveria me sentir culpado se trabalho, ganho um salário e pago meus impostos? Culpados são os pelegos imorais que justificam seus crimes como se não fossem eles quem os cometessem.
2 comments:
Pitaqueando...
Também acredito que o indivíduo seja responsável por seus atos. E que óbviamente há aqueles que se livram da culpa por um ideal qualquer. Mas, Fernando, o discernimento é uma dádiva que nem todos possuem. E o ambiente influencia, sim, nossa capacidade de fazer escolhas.
No fim das contas, só os fortes conseguem discernir.
Beijos,
Clarisse
Pra variar, seguindo sua trilha, gostaria de ler a entrevista. Rola uma copiazinha pra uma amiga?
Paula
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