Friday, April 03, 2009

BBB


Após intermináveis semanas o BBB edição sei lá qual está chegando ao fim.
E temos que decidir se vamos dar um milhão de reais à morena-fogosa, à loura-desequilibrada-e-mimada, à burrinha-engraçadinha ou ao artista-plástico-desencanado-não-estou-nem-aí-para-isso.
O quê? Estou julgando demais? Mas não foram os próprios participantes que se dispuseram a ser julgados por milhões de outras pessoas? Só estou fazendo minha parte...
Cada um deles encarnou um arquétipo literário daqueles mais manjados. O engraçado é que todos eles falam ao Pedro Miau: ah, eu sou assim mesmo. Nada mais falso.
É absurdo achar que alguém aja naturalmente sabendo que está sendo filmado 24 horas por dia ao vivo para todo o país.
Não condeno de modo algum a Rede Globo ao por o programa no ar, afinal estão fazendo o que lhes compete, dar um milhão para ganhar centenas de outros.
Como constatou JP Coutinho ao analisar o caso da inglesa que mostrou seu câncer ao mundo pela TV, temos a tendência de culpar os tubarões capitalistas da mídia pelo lixo que despejam em nossa sala. Já dizia Adam Smith no entanto que se não houvesse demanda, não haveria oferta. Isto vale para a indústria de entretenimento e para qualquer outra: quanto mais lixo consumirmos, mais lixo nos será oferecido.
O que me perturba no fenômeno Big Brother não é sua assustadora audiência. É constatar o tipo de pessoa que nossa sociedade contemporânea decide recompensar.
De fato, em vez de caráter, talento, coragem, capacidade ou realização, o único atributo que importa hoje para ser recompensado chama-se atenção. A medida de sucesso de uma pessoa é dada pela quantidade de anteção que ela consegue obter (Pense em Paris Hilton por exemplo, um role model imitado por milhões de adolescentes no mundo).
Ter atenção em quantidade suficiente é o que basta para você passar ao que Giuliano da Empoli em l'Orgie et la Peste chama de über-class dos tempos modernos, a superclasse das celebridades. E vale tudo para chegar lá. Nem que se chegue lá como aquela subcategoria conhecida como ex-BBB.
E como atenção é coisa difícil de se conseguir neste planeta globalizado e frenético, a idéia é adotar comportamentos cada vez mais exóticos para tentar monopolizar mesmo que por pouco tempo os holofotes. Pense em Lindsay Lohan, Britney, Michael Jackson, Madonna, Amy Wiinehouse...Seguindo o exemplo, virou moda entre meninas americanas por exemplo divulgarem suas fotos bêbadas em seus sites de relacionamento, ou relatarem sua vida sexual e sentimental em fotologs. Moda que está se espalhando por aqui.
Não é por exemplo motivo de espanto nenhum que a ex-modelo de ensaios sensuais e agora ex-BBB Maíra, cujo filme pornô amador anda circulando aí pela internet, queira comandar um programa infantil. Se ela é uma candidata a celebridade, ninguém irá lembrá-la de que pornografia e educação infantil são incompatíveis.
Um estudo psicológico desenvolvido durante os anos de ferro do nazismo na Alemanha recolhia relatos dos sonhos de pessoas comuns. O sonho mais recorrente entre elas era o de estar em uma casa de vidro, com paredes transparentes onde ela soubesse ser observada o tempo inteiro. Reflexo da paranóia que o controle totalitário exercia sobre a vida do cidadão.
A diferença hoje é que todos querem voluntariamente pular para dentro da casa de vidro.
O BBB é só mais um sintoma, de como o totalitarismo das celebridades está entrando em nossas vidas.

3 comments:

Frodo Balseiro said...

Pelo que ví, rapidamente ao passar pelo quarto da empregada (hehehe), essa edição dos futuros ex-bbb, caracterizou-se pelo número impressionante de mulheres feias, e com...digamos assim, grande sobre-peso.
Como dizia o sábio Imperador Romano :"Panis et circenses",dito isso, matou a mãe, e tocou fogo em Roma!
Como se vê nenhuma ação humana é por acaso, ou desconectada do mundo em volta.
Como diria ainda um sábio, por coincidência (?)ex-bbb, "Faz parte".

bete said...

Por toda parte vemos pessoas representando para as câmeras. Canso de ouvir: EU penso assim, a MINHA filosofia de vida, eu ACHO que é assim - aí a pessoa desfila todo o conhecimento barato que aprendeu na tevê ou que leu na Caras, ou mesmo na Veja, não é o caso, o caso é que pensadores são aqueles que emitem opinião pura, água da bica, da nascente. Estamos rodeados de pensadores emprestados, o famoso papo do cafezinho e galão de água, onde todo mundo sabe algo inteligente para falar só que...não é dele. Notemos que há mais ênfase nas "opiniões" na segunda feira, porque todo mundo veio abastecido pelo Fantástico.

Essas crianças do BBB escolheram (e muito mal) suas personagens, mas essas personagens, os novos bobos, são a síntese do que há aqui fora. Dentro ou fora da casa de vidro, o que temos é gente usando idéias dos outros, moda dos outros, comportamento dos outros, gente se imitando a tal ponto, que já não se sabe nem mais quem imita que.

Alessandra said...

Ainda bem que existe tv paga, livros, fogão à lenha, sono... e outras coisas que me protegem desse horror - cumulo -do- mau - gosto!